segunda-feira, 17 de março de 2014

Lilika, 1970


Há inúmeras questões, mas tomei como exemplo uma criança, porque elas são testemunhas claras do que pretendo dizer - Ivan Karamozov

É com essa oportuna frase que começo meu texto. Que não somente resume o filme sérvio "Lilika", como também toda uma pesquisa minha voltada para a relação da criança com o meio. Sou um admirador há anos de filmes que extraem da criança - leia-se inocência - sua visão perante a realidade. Pesquisando audiovisual do mundo todo, me deparei com o cinema Sueco, que nos brinda com uma sensibilidade única com filmes como "Flickan", "Elina - Som om jag inte fanns", "4-Ever Lilya" do Lukas Moodysson diretor que, inclusive, tem todo um trabalho dedicado ao jovem.

4-Ever Lilya
Flickan
Elina
Como perceberam, eu procuro no cinema alternativo a criança, é fácil perceber que esses filmes tem muito em comum. Aliás, unido com o silêncio Europeu, fica realmente maravilhoso acompanhar a descoberta dos nossos pequenos heróis. Com isso, temos a querida Dorota Kedzierzawska, diretora polonesa com uma dedicação inacreditável em registrar todo o processo da vida. Ora, se dúvida, assista "Nic", sobre as dúvidas de uma mãe, "Corvos", o cuidado, "Eu Existo", o sem ninguém e, por último, "Hora de Morrer", a velhice. Seus filmes traçam a história do homem, eu, você, qualquer um. Ninguém. Somos todos frutos da mesma indecisão/amor/carinho/abandono. Dorota - como a chamo carinhosamente, ou simplesmente por não saber pronunciar o sobrenome - é a musa da minha vida e certamente vale ser citada pois, assim como o filme que escreverei, se encaixa perfeitamente na frase inicial.

Lilika


Filme Sérvio de 1970, dirigido pelo Blanko Plesa, que mais tem trabalho como ator do que diretor. Essa obra é tão difícil de achar que nem eu lembro como consegui. Então infelizmente não vou conseguir colocar o link pra download, mas merece a investigação de pessoas que entendem melhor do que eu de torrent. Enfim, conta a história da pequena Sandic milica - interpretada brilhantemente pela Dragana Kalaba - que é mal tratada constantemente pela mãe que, por sua vez, é mal tratada pelo marido. Ou seja, uma família disfuncional que faz com que, a menina, só tenha atenção para uma pessoa: Seu irmão, ainda bem novo. Ela não liga nem para ela mesma, honestamente. É tanto que começa fazendo pequenos furtos de frutas para o irmão, até se tornar em algo rotineiro. Unido a isso, temos a descoberta sexual, que se apresenta de forma bem sútil, mas muito significativa. Sútil até porque ela não se preocupa com as suas próprias experiências, tudo está muito vago para a pobre garota, seus desejos são deixados de lado pelas suas obrigações.

Sempre com o mesmo vestido cinza, exteriorizando o seu coração, são poucas mas especiais as cenas em que ela é criança. Destaco a mais linda do filme:

Ela fala para o seu amigo que poderá fugir se a instituição for pegá-la, por causa dos furtos, extremamente preocupada em deixar o seu irmão com os "pais" ela convida o seu amigo para fugir com ela e, como recompensa oferece um beijo, mas um beijo como os adultos. Claro que, depois dessa cena, lembrei imediatamente do "Eu Existo", onde tem uma cena muitíssimo parecida com essa e igualmente maravilhosa. A dor do abandono faz com que a maturidade bata na porta antes do esperado. A vida se torna uma estrada chata, sem parques de diversões e sem gargalhadas. O beijo se torna um símbolo de crescimento, um beijo como adulto representa uma prisão.


Prisão esta que está presente á todo momento, acompanhado por uma trilha intimidadora, "Lilika" tem um desenrolar triste, nada se explica, tudo se mostra. Tem que estar disposto a ouvir o silêncio e, como bons adultos, nos tornamos crianças para ouvir algo que não se fala. O olhar diz muito.



Uma história banhada em guerra, como a própria garotinha narra o quanto a guerra prejudicou sua vida, ironicamente a própria brinca que está em uma em dado momento. Com uma pitada de abuso, abuso psicológico, abuso pelo abandono e outros que ficam escondidos, só visíveis para os dispostos a entender, o filme é um tesouro perdido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...