sexta-feira, 3 de maio de 2013

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

Mente que brilha eternamente


 

A cena inicial de Brilho Eterno não poderia ser melhor. Joel, nosso herói, acorda em seu quarto e se prepara para ir ao trabalho.

“Pensamentos avulsos para o dia dos namorados, 2004. Hoje é um dia inventado pelos fabricantes de cartões para fazerem as pessoas se sentirem como bostas...”

Sem um motivo óbvio, aparentemente, ele segue outro rumo no seu dia, que outrora seria apenas mais um.

“Não sei por que, não sou uma pessoa impulsiva...”

Eu, pessoalmente, não acredito que exista uma pessoa que não seja impulsiva pelo menos uma vez. Às vezes, dependendo do que, claro, precisamos seguir nosso coração e deixar a razão de lado. Só assim estaremos aptos a refletir sobre nossas decisões e aprender a aproveitar o momento. Perceba, por exemplo, que assistindo um filme, mesmo que seja um bem bobo, o momento que você está passando dita a sua identificação com os personagens e seus respectivos objetivos. Ou seja, o cinema tem o poder de trazer sentimentos guardados pelo simples fato de ser sincero e, nesse ponto, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças é perfeito.


Os dois protagonistas, Clementine e Joel representam o oposto. E é fascinante perceber que até mesmo os atores exemplificam isso: Kate Winslet sempre interpretou mulheres ricas e comportadas. Já o querido Jim Carrey, não precisa nem falar não é?

O que temos aqui é, essencialmente, o oposto. E já que o filme se passa pela visão/memória do Joel, pode ser que nem todas as imperfeições de Clementine sejam verdadeiras, talvez ele só esteja distorcendo as suas perfeições. Mais realista e sincero que isso é impossível. Essa ideia central é muito identificável, seja para um idoso e toda sua experiência ou até mesmo jovens e seus primeiros contatos com a paixão.

Buscamos a igualdade quando, o que nos move, é a diferença. A base de uma relação é exatamente a troca. Como trocar o que já se tem? Teimamos em acreditar que a igualdade é fruto de uma boa escolha quando, na verdade, ser igual é respeitar a visão do outro, independente se concorda ou não.


Qualquer pessoa que passou por esse mundo teve contato com essas questões, e, quando penso nisso, fico emocionado com a coragem dos criadores – Seja o roteirista Charlie Kaufman ou o diretor Michel Gondry – em unir isso a uma linguagem e visual da cultura pop. Por exemplo, o que mais vejo na internet é pessoas falando sobre a cor do cabelo da personagem, que captura os sentimentos vividos em cada momento. Pela quantidade de gente que destaca esse ponto, porque ouviu em outro lugar ou não, é possível perceber como a essa difícil mensagem é facilmente transmitida para essa nova geração.

Somos filhos do audiovisual, internet, da cor, do pop e da tecnologia como um todo. Nosso interesse não é mais no classicismo, queremos viver mais em menos tempo, sentir mais de uma forma mais rápida. Algumas linguagens se tornaram inacessíveis. Autores, antes aclamados, hoje são chamados de vovôs. E você que reclama do “alienamento” dos jovens perante a uma programação que, a seu ver, é de baixa categoria, saiba que você também já esteve alheio em alguma fase da sua vida. A grande questão não é mudar, isso é inevitável. A questão é estar preparado para mudança. A arte surge com uma importância gigantesca – como sempre foi – para transmitir mensagens de outra época, mas, com um visual descolado, personagens em meio a correria do dia a dia, solitários, se questionando e questionando o amor que tem ou falta, cria-se uma mensagem atemporal que dialoga muito bem com essa nova geração.


Fico boquiaberto com a construção por meio de nuances dos personagens. Joel vai para Moultalk – sentindo o vento – e, em certo momento, sentado em uma lanchonete vê uma mulher estranha de cabelo azul. Ele olha timidamente para ela e, quando percebe que ela retribui o olhar, ele abaixa rápido a cabeça e se esconde atrás do seu diário, onde desenha seus momentos e escreve pensamentos aleatórios que, significativamente, representa o seu coração.

“Porque será que me apaixono por qualquer mulher que me dá o mínimo de atenção”?

Agora, pergunto, qual homem tem coragem de dizer que se apaixona facilmente? A verdade é que, muitas vezes, nos apaixonamos platonicamente. Alguém passando na rua, no ponto de ônibus, cinema ou praça, vivemos rodeados de pessoas e, quando estamos sozinhos, nos questionamos sobre a ausência de alguém, mas como pode? Se estamos rodeados de pessoas, porque não conhecemos ninguém? 

Simplesmente porque não temos tempo. Estamos preocupados com a conta, estudos, trabalhos, compras etc. Nem ao menos somos capazes de olhar para o lado hoje em dia. Seguimos de cabeça erguida e caminhando apressadamente sem notar que tudo esta acontecendo do nosso lado. Todos estão do nosso lado. Mas, infelizmente, o que realmente queríamos gritar para o mundo, nós escrevemos em nossos corações. Resta-nos olhar, olhares somente...


Raramente, na história do cinema, foram criados personagens/ideias com tanto carinho. Percebam que cada roupa e objeto tem uma importância enorme para a trama. Por exemplo, quando Clementine está dormindo no carro e pergunta para Joel se ela pode dormir na casa dele, ela vai pegar sua escova de dente,e esse é exatamente o fim do começo e começo do fim. Mas, claro, o processo todo do esquecimento é baseado em uma série de objetos que situam ambos em momentos bem simples, mas extremamente importantes.


“Vou me casar com você. Sei disso.”

O esquecimento, como visto no filme, é simbolicamente a nossa mania de querer superar as pessoas. Poucas coisas doem tanto como a separação. Mas lidamos com ela de uma forma errada, ou melhor, precipitada. Vemos esse momento como a hora de superar, passar por cima ou até mesmo esquecer. Mas se uma pessoa entra em nossa vida, algumas por tanto tempo, não podemos simplesmente esquecê-las. Temos que, mais uma vez, aprender a lidar com a ausência. Momentos, discussões, sexo, carinho, olhares, sorrisos, beijos... Tudo o que se passa junto deve ser imortalizado. O fim é uma questão de tempo, e tempo para cada pessoa é diferente. A vida a dois é construída pela aceitação do tempo do outro, mas, mesmo assim, às vezes, não conseguimos entender o nosso próprio. No fim, separação é não estar bem consigo mesmo.

“Srta. Kruczynski não estava feliz e queria seguir em frente. Nós oferecemos essa possibilidade.”


A mente que brilha eternamente é aquela que vive. Que se atreve. Que se doa e aproveita. Temos pouco tempo nesse grande palco da vida para apresentar nossos sentimentos de uma forma clara e, principalmente, ajudar alguém a compreender os seus. Enxergamos o próximo como meu, quando nem ele é dele. Precisamos parar de exigir a igualdade, para que assim possamos desfrutar a diferença.

Cuidamos para crescer. Amamos para sermos amados. Vivemos para sorrir. Momentos passam rápido, seja ele ousado (como deitar em um rio congelado), romântico ou aventureiro, mas, o que verdadeiramente importa, será eterno. Assim deve ser.


“Feliz é o destino da inocente vestal, esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, onde toda prece é ouvida, toda graça de alcança.”





- Joel, eu sou feia?
- Quando criança, eu me achava feia. Às vezes acho que as pessoas não entendem a solidão de ser criança. Como se você não fosse importante. Eu tinha 8 anos e tinha brinquedos. Essas bonecas. A minha preferida era uma boneca feia que eu chamava de Clementine. E eu gritava para ela:
- Não pode ser feia! Seja bonita! ... Estranho. Como se, caso eu pudesse transforma-la, eu também mudaria, magicamente.
- Você é linda – Disse Joel olhando nos olhos de Clementine. Em uma mistura de carinho, sinceridade e desespero.
- Joaly, nunca me deixe.
- Você é linda. 
- Por favor, deixe-me guardar só está lembrança, só está! - Ele gritou.

“Abençoado os esquecidos, pois tiram o melhor de seus equívocos”














quinta-feira, 18 de abril de 2013

Definições: Problema ou solução?


“Um ponto de vista é a vista de um ponto”


Eu me considero uma pessoa sonhadora. Mas teimo em destacar que existem as pessoas sonhadoras e aquelas que se iludem. São duas coisas completamente diferentes e que, muitas vezes, não sabemos diferenciar. Sonhador é aquele que sonha alto com os pés no chão, ilusivo é aquele que está tão concentrado em revolver, que acaba se perdendo. Aliás, essa não é uma definição direta. Mas o que é a definição

A definição é inerente ao ser humano. Buscamos sempre definir as coisas, para simplificar uma ideia ou desejo.  Se eu perguntar para alguém: O que é respeito? A primeira coisa que vem à cabeça é uma forma de simplificar a resposta, ou seja, “respeito é respeitar alguém”. O que quero dizer é que imediatamente pensamos em uma coisa bem óbvia, isso porque não sabemos o que é respeito. Mas como não?



Significado e/ou definições é construído com a ajuda do tempo, das experiencias. A família ajuda a compreensão de algumas coisas, mas realmente vamos aprender quando sentirmos, ou melhor, com um contexto. Uma criança de 3 anos não sabe o que é injustiça, até ver o contexto da palavra. Por exemplo:

Joãozinho está assistindo televisão, está passando o seu desenho favorito. O personagem principal estava passando na rua e, de repente, passa dois bandidos e colocam um colar roubado em seu bolso. Por algum motivo um policial descobre o colar no bolso do personagem e o leva a cadeia. Chegando lá, ele fala: Isso é uma injustiça!

Então a mágica acontece! A criança não entendia o que era injustiça, muito menos passou a entender, mas ela conhece o seu contexto e irá, com o tempo, sentir isso na sua própria vida. Então agora pergunto à você ( Sim, você mesmo ) o que é raiva, amizade, felicidade, sentimento, ódio, tristeza, destino e amor

Se você for humilde - levando em conta que humilde é aquele que sabe que nada sabe – você responderá que não sabe. O que, na verdade, seria uma grande mentira. Você sabe, porque você sente. Sentir as coisas independe do seu intelecto, poder ou formação. Sentir, que vem do latim “sentire” quer dizer ( vamos ao dicionário):  ”receber impressão por qualquer dos sentidos”. Para ser sincero, abri o dicionário para interpretar – ou definir – essa palavra e não gostei nem um pouco. Então, para mim, sentir é ter sensibilidade. O que é sensibilidade? – Procurei novamente no dicionário e encontrei o seguinte: “Capacidade de sentir”- Não gostei também. Para mim, sensibilidade é se despir de preconceitos e aceitar, simplesmente aceitar.


Temos que aceitar porque de nada adianta querer mudar. Você quer sonhar ou se iludir? Não venha me dizer que sou pessimista, sou realista. A mudança acontece, primeiro, em você. Mude, respeite, sinta, veja e, acima de tudo, compartilhe. Quem sabe assim você não possa passar a fazer definições em parceria com o mundo?

Tem um ditado chinês que diz o seguinte: “Quando dois homens vêm andando na estrada, cada um carregando um pão, e trocam os pães quando se encontram, cada um vai embora com um pão. Mas, quando dois homens vêm andando na estrada, cada um com uma ideia, e ao se cruzarem trocam as ideias, cada um vai embora com duas ideias.”


Espero que não tenha entediado ninguém com o meu devaneio. Ora bolas, o que raios é devaneio? Não, não se assustem. Vou parar por aqui. Até a próxima e, se sentirem necessidade de completar ou corrigir algo, fiquem à vontade!


"Definições" de Adriana Falcão, interpretado pelo glorioso ator Juca de Oliveira

domingo, 7 de abril de 2013

No et Moi ( No e Eu )


Lou é uma menina “superdotada” e solitária de treze anos que, por meio de uma entrevista para um trabalho de escola, conhece No, uma jovem moradora de rua. Cria-se, aos poucos, uma forte amizade entre as duas e juntas buscarão uma forma de lidar com a solidão.

O primeiro ponto forte do filme francês dirigido e estrelado pela ótima Zabou Breitman é não se preocupar em ficar mostrando o quão a pequena e adorável Lou é uma menina triste e inteligente. Não precisa de palavras! Por isso temos, ao longo, muitas cenas que representam a confusão/personalidade da garota. Como a brincadeira dela de andar em linha na calçada ou os devaneios no ônibus com a cabeça encostada na janela. 


Como extensão do primeiro ponto, temos um casamento perfeito entre a proposta e performance da atriz principal. Nina Rodriguez com seu rostinho delicado constrói uma personagem que é o oposto da sua nova amiga, Nora ( “No” como gosta de ser chamada ).

Fica evidente a evolução das duas meninas. No, por exemplo, é instável, melancólica e rebelde, mas, pouco a pouco, vai aderindo a prudência da amiga – Isso se comprova, inclusive, mais ou menos na metade do filme, quando as duas brincam de andar em linha juntas.


O filme fala sobre solidão, e a maneira que a trama amadurece é impressionante. Nada se resolve, tudo se resolve. Aliás, as duas tiram uma da outra exatamente aquilo que precisam e, nesse pensamento, é muito importante o papel da mãe na história. Visto que ela sim é eterna e estará sempre lá, acompanhando o processo de uma pré-adolescente que, como todas, só quer crescer. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Magnólia


Quando tudo se complica, Deus faz chover


No melhor ou pior momento das nossas vidas só uma coisa é certo: Nós aprendemos. Talvez seja exatamente essa a razão – se é que há alguma – para nossa existência. Sempre me senti muito próximo do estranho, cresci assistindo “Edward Mãos de Tesoura” e aquela situação de novidade que tanto assustava o personagem principal sempre me encantou muito. Hoje vejo que isso se dava pela palavra, hoje tão utilizada e, no mesmo tempo tão bonita chamada: Identificação.
É estranho pensar que é possível se identificar com um monstro, objeto ou animal. Pensando bem, esse é o papel da arte... Aliás, o que será que é arte? Não sei dizer, mas eu sinto. Assim como sentia o poder que o audiovisual tinha sobre a minha vida muito antes de entender o porquê.

Cresci em uma época – ou lugar – muito boa. Onde tudo o que você assistia, jogava ou lia era compartilhado com os amiguinhos na escola no dia seguinte. Uma pena que as coisas hoje em dia mudaram um pouco, mas veja o nosso alcance! Não é fantástico? Agora com a internet podemos compartilhar aquilo que gostamos e tornamo-nos seres identificáveis, apesar da distância. 

O tempo passa, coisas acontecem e, a partir de um certo momento – infelizmente não tem como controlar isso – nós crescemos, seja por causa da idade ou responsabilidades. O mais interessante é que a informação e o sentimento passa a ter um outro propósito na sua vida: Te fazer um homem. Foi nesse exato momento da minha inútil, linda e eterna passagem pelo mundo que compreendi o cinema... Ou melhor, compreendi a mim mesmo.


Magnólia

“Talvez já passamos pelo passado mas o passado não passou por nós”

Com treze anos assisti um filme chamado “Magnólia”. Costumo dizer que tudo tem um momento certo e, apesar de achar que eu fui um pouco precoce, acredito que essa experiência me ajudou a enxergar as coisas de uma maneira diferente, mesmo que o meu redor dite o contrário.  Como um pai ensina um filho a jogar bola, Paul Thomas Anderson me ensinou a amar, me amar.

Muitos filmes contam a história de uma longa vida, poucos contam a história de um momento. Muitos mostram um só personagem e sua caminhada ao sucesso, mas poucos mostram o homem e sua origem.  Sendo assim, o ponto crucial de Magnólia está na sua sinceridade perante as eternas crianças que o assistem. Crianças que, assim como os adultos, tentam incansavelmente encontrar o amor, se encontrar.

“Eu tenho muito amor para dar, só não sei onde colocar” – Frase do Donnie Smith, personagem interpretado pelo William H. Macy

Começamos com o narrador. Ele nos apresenta três histórias que mesmo sendo tão fantástica, é estranhamente muito real, principalmente na sua mensagem. O fato é que ele abre uma
discussão sobre o que é coincidência. E, para aqueles que teimam em continuarem céticos, o narrador os convida para assistir uma grande história/verdade de 188 minutos onde será abordado o amor, destino e, principalmente, arrependimento.

Depois disso, como uma flor desabrochando delicadamente, vamos conhecendo cada personagem de uma forma que se cria um elo entre todos desde o início. Fazendo com que absolutamente todas as cenas sejam um fragmento de uma só mensagem. Todos os personagens tem um mesmo propósito, criando-se também uma linda conexão com as músicas da cantora Aimee Mann.

“Um é o número mais solitário” – “One”


Eis que surge um personagem que resume em um espetáculo para homens, toda a primitividade que nos cerca. Representando então, a essência.

“Respeitem o pênis e domem a vagina! Homens nasceram para comandar: É biológico, antropológico e animal”Frank T. J. Mackey

Isso mesmo, homens desprezam, usam, não choram... Não? Mas veja que ironia, o próprio T. J. Mackey termina o filme chorando, em uma cena de desabafo, tanto do homem quanto do universo. Sapos?!

Seja Claudia Gator e seu vício, Linda Partridge e sua culpa, Jim Kurring e sua bondade, Phil Parma e sua paciência, Jimmy Gator e sua doença ou Earl Partridge e sua morte, todos estão juntos. Não há respostas, não existe nada além de, simplesmente, existir. E, para fazer o bem, tanto para sí próprio como para o outro, basta compartilhar.
O filme termina, não por  acaso, com um sorriso, esperança. Se uma menina que fora violentada pelo pai tem a chance de sorrir novamente, então nós também temos. 

“...Como Peter Pan, ou como o Super-homem
     Você aparece... para me salvar.
     Venha e me salve
     Se você puder, salve-me,
     Do grupo dos esquisitos,
     Que suspeitam que nunca irão amar ninguém...” - Save-me


Em um tempo onde eu questionava muito as ausências que existiam em minha vida,  P. T. Anderson me deu de presente uma oportunidade. Dizem que algumas coisas acontecem independente das suas ações, mas, quando penso nisso, e lembro do quão leve e sincero foi os meus primeiros contatos com o cinema,  e da forma que ele me salvou, sinto que tudo o que nós vemos ou fazemos em nossa vida, nos transforma de alguma maneira. Esse é o propósito da vida, e, claro, esse é o objetivo da arte. 

O Show de Truman



- Nada foi real?
- Você era real. Por isso as pessoas gostam de assisti-lo.

Ganhador de 3 globos de ouros: melhor ator: Jim Carrey, melhor ator coadjuvante: Ed Harris e melhor trilha sonora original. Além de ter sido indicado a melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro.
O Show de Truman conta a história de Truman Burbank, um bebê que foi adotado por uma corporação. O Motivo? O garoto é a peça principal de um novo Reality Show do qual um homem ( no caso Truman ) é monitorado 24 horas por dia. O Reality vira um sucesso incontrolável e Truman é amado por todos porém, leva uma vida rodeada de mentiras.
O diretor Peter Weir dirigiu grandes filmes como Sociedade dos Poetas Mortos e A Testemunha. Em O Show de Truman ele chega ao seu ápice, conseguindo unir o divertimento, simbolismo e crítica de uma forma perfeita, devido, principalmente, ao carisma de um excepcional Jim Carrey e o enigmático Ed Harris.

Ao longo do filme é discutido a importância da existência de Truman ( leia-se “ser-humano” ), um homem que trás a diversão e inspiração para o mundo mas no seu interior nunca foi completo pois, faltava verdades, um objetivo, vemos isso em uma cena maravilhosa entre Truman e seu amigo ( Noah Emmerich ) no qual o nosso herói, exuberante, cita a sua vontade de ir além, para as ilhas Fiji. Cena essa que eu tenho um carinho enorme e acredito que seja a mais importante de todos os 103 minutos de filme.
Hoje em dia os Reality Shows se tornaram baixos e sem propósitos significativos, mas seu objetivo sempre foi nos mostrar vidas, pessoas e seu dia-a-dia, nos identificamos com os desentendimentos, choros, angústias e felicidade pois, de fato, possuímos o nosso próprio programa de tv, aquele que os expectadores é a nossa família, amores e amigos. Não vejo O Show de Truman como uma crítica aos Realitys apenas, ele utiliza, de uma forma brilhante, um formato popular e identificável, para fazer uma ligação entre cinema, vida e aceitação.
Um roteiro simplesmente perfeito de Andrew Niccol que se dedica em nos mostrar o desespero/ânsia por liberdade, ousadia e superação. Fazendo com que Truman seja um herói, tanto dos espectadores do Reality Show como os que assistem a esse, que eu considero um dos melhores filmes da década de 90.

“Aceitamos a realidade do mundo no qual estamos presentes”

Para Sempre Lilya


Ao som de Mein Herz Brennt  ( Meu Coração Queima ) da banda alemã Rammstein, temos o primeiro contato com a personagem Lilya. Ela está correndo – aparentemente sem rumo – e a única coisa que sentimos, e sabemos que acontece ali, é desespero. A menina está a beira de um suicídio, e , se observarmos a música que acompanha aquela terrível situação, vemos que não haveria uma melhor forma de expressar todo sentimento que temos nessa cena.

O Filme é dirigido pelo diretor Sueco Lukas Moodysson, que fez filmes incríveis e conceituadas como: “Amigas de Colégio” – que até hoje é louvado por muito Suecos, “Um Vazio no Meu Coração” e, o mais recente, “Corações em Conflito”.
“Para Sempre Lilya” conta a história de uma jovem de 16 anos, interpretada pela carismática e linda Oksana Akinshina, que quando abandonada pela mãe em um subúrbio da antiga União Soviética, recorre a prostituição para sobreviver. Exposta aos problemas diários, a única pessoa que lhe faz companhia é seu amigo Volodya um garoto de 11 anos.
Apesar de ser um filme muito triste, a esperança está presente em todo o filme, a vontade de que as coisas dêem certo mesmo sabendo que é extremamente difícil algo bom acontecer. O sentimento é acolhedor, pois, querer ajudar é o que mais passou pela minha cabeça, e sabendo que o abandono está presente na sociedade todos os dias, nos afasta da impressão de que a história de Lilya é ficção.
Eu sempre digo que o cinema é a melhor forma de conhecer pessoas e situações, poder estar ao lado dos personagens e sentir o que eles sentem, mas, de vez em quando, aparecem filmes que tem como intenção te dar um soco bem forte, para simplesmente, acordar.
Recomendo de coração a todos assistirem “Para sempre Lilya”, um dos filmes mais honestos que já assisti.


Perfect Blue


Mima, uma estrela pop integrante do grupo CHAM, decide trocar a carreira musical para se dedicar a atuação. Logo, consegue uma oportunidade em uma série de tv. Mas ao longo do tempo, ela adentra ao mundo da exposição tanto física como psicológica, resta-lhe então, lembranças dos seus dias inocentes.

A idéia inicial de Satoshi Kon ( diretor de Perfect Blue ) era realizar o filme em Live-Action, mas em 1995 sua verba foi cortada devido a um terremoto que destruiu o estúdio de gravação. Um desastre acabou ajudando a realização de um dos melhores filmes de animação já feita na história do cinema.
 Logo na primeira cena, vemos uma apresentação do grupo CHAM, é notado o sucesso considerável que as três adoráveis meninas estão fazendo. Esta cena inicial nos mostra algo crucial, Uchida, um fã incontestável do grupo, estende suas mãos dando-nos a impressão de uma certa manipulação de Mima, algo que ao desenrolar, comprovamos o tamanho da sua obsessão pela estrela e sua imagem.
Mima, ao se tornar uma atriz, se depara com um mundo de crueldade e ganância, algo que não esta preparada para lidar. A única pessoa que a ajuda é sua assistente Rumi que se torna seu único escape de realidade e cautela. Por muitas vezes, Rumi insiste na preservação de Mima, mais ela, está invadindo cada vez mais o mundo da exposição de imagem e doação na sua recente carreira de atriz. Chegando ao ponto de fazer ensaios fotográficos nua e se submeter a uma cena de estupro. Tudo isso misturado com belíssimas trilhas sonoras e relances do atual sucesso de seu antigo grupo musical, ou seja, o exibicionismo contra a inocência.
A introdução da vida e cabeça da personagem principal é, sem dúvida, o ponto forte do filme. É extremamente cuidadoso com os pensamentos, diálogos e pequenos nuances da personagem, que resulta em uma identificação ainda maior. Algo semelhante com os filmes do gênio Alfred Hitchcock que foi, com certeza, uma fonte de inspiração para a realização dessa obra-prima cinematográfica.
Somos levados ao limite quando Mima percebe o que está acontecendo e se da conta que existem pessoas querendo se apossar da sua vida. Caímos em uma rede de  conflitos internos junto com a personagem e chegamos ao ponto de não saber mais o que é a realidade.

“Mima – E se eu morri atropelada por aquele caminhão e tudo isso é um sonho?”

Temos um desfecho brilhante e inimaginável, onde a tensão aumenta a cada instante junto com a trilha sonora. Uma das maiores sequências da história do cinema.

Termino essa análise com uma frase de Mima:

- Eu sou real!


Uma Vida Nova em Folha


Acompanhamos a história de Jin-hee que é levada pelo pai a um orfanato de freiras, a menina não aceita o ambiente, pois acredita que seu pai irá buscá-la, e faz de tudo para não ser adotada.
 Uma Vida Nova em Folha é um filme da Coreia do Sul dirigido pela diretora Ounie Lecomte e protagonizado pela adorável Sae-ron Kim, atriz que certamente tem um futuro brilhante pela frente.
É lindo quando, sem querer, acabamos encontrando um ótimo filme. Eu não tinha a mínima idéia da existência dessa excelente obra e quando olhei algumas imagens me apaixonei pelo que vi. O filme começa com uma sutileza admirável, somos convidados a viver pelos olhos da pequena Jin-hee, prova disso é o uso de câmera quando a garota está próxima ao pai. – Reparem a magnitude da cena em que ela chega mais perto dele na cama.
Quando ela vai para o orfanato, vemos a dor existente naquele coração, sem recorrer ao melodrama e trilhas sonoras feitas para chorar. O ponto forte é acompanhar uma garotinha de nove anos e não apelar para um drama infantil, os suspiros e lágrimas são tratados com respeito. Respeito esse, que exige uma surpreendente atuação de Sae-ron Kim, atriz mirim que, provavelmente, terá um grande sucesso em sua carreira.
Outro ponto forte – e talvez o melhor – é a fotografia, extremamente sutil e compacto com o visual da protagonista.
O filme estreou em 2009 e é um pouco difícil encontrar, mas com certeza vale o esforço. Consegue emocionar sem ser apelativo e nos apresentar uma personagem tão delicada que, em apenas três sorrisos, nos deixa apaixonados.


Palíndromos


“Um palíndromo é uma palavra, frase ou qualquer outra sequência de unidades que possui a propriedade de poder ser lida tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita.” – Texto retirado do site Wikipédia.
O diretor Todd Solondz é conhecido por seus filmes melancólicos e extremamente críticos. Seus trabalhos são tão sinceros e viscerais que é possível sentir o prazer que ele tem em realizá-los. Prova disso é que para tirar do papel seu quarto filme, Palíndromos, ele precisou gastar todas suas economias porque ninguém queria apostar no seu projeto.
O filme conta a história de Aviva, uma menina de 13 anos, que deseja desesperadamente ser mãe. Ela tenta de todas as maneiras possíveis realizar seu sonho, mas quando é impedida por seus pais, a garota resolve fugir de casa.

Palíndromos é uma obra muito particular do diretor e sua visão sobre o mundo. A personagem principal é vivida por várias atrizes e cada uma tem uma importância gigantesca com a trama. A infelicidade está presente o tempo todo e em todos personagens, e, assim como a palavra “Palíndromo”, não há para onde fugir, fazendo ou não, mudando ou não, sempre acabará no mesmo lugar.
Acompanhamos uma história que desenvolve, com delicadeza, possíveis questionamentos sobre o aborto, e o mais lindo é que tudo isso é feito atravéz de pensamentos, momentos e reflexões de crianças. Sempre com uma boa trilha sonora, é impossível não ficar chocado com a situação em que somos expostos.
Um filme extremamente reflexivo, profundo e ousado, abusa da linguagem para levantar questões moralistas e éticas, e isso o torna extremamente provocante.


Da Servidão Moderna


“Como todos os seres oprimidos da história, o escravo moderno precisa de seu misticismo e de seu Deus para anestesiar o mal que lhe atormenta e o sofrimento que o sufoca. Mas esse novo Deus, a quem entregou sua alma, não é nada mais que nada, um pedaço de papel, um número que apenas tem sentido porque todo mundo decidiu dar-lhe. É em nome desse novo Deus que ele estuda, que ele trabalha, que ele luta e se vende”.

O documentário fala sobre a escravidão do qual somos expostos diariamente, e que muitas vezes, nem percebemos. A linguagem utilizada para nos transmitir essa mensagem é, no mínimo, chocante. Visceral ao ponto de fragmentar cenas de diversos filmes e nos apresentar fotografias extremamente simbólicas – como a famosa foto da menina vietnamita nua segurando as mãos de ícones infantis como Mickey e Mcdonalds. Se não bastasse, é usada repetidamente a técnica de aceleração, nos remetendo a rotina e nossa condição de “cordeiros”.
O ser humano acredita, ignorantemente, que é dono da própria vida e pode fazer o que quiser, porém, acaba se distanciando da realidade do qual ele, apesar de às vezes insignificante, faz parte.
Não quero ser pessimista mais em nenhum momento o filme apresenta soluções, até porque, ao meu ver, algumas coisas são irreversíveis e nesse ponto o filme se sobressaí, pois depois de trazer idéias maravilhosas – levando em consideração que nada do que é dito é descartável – o documentário conclui, claro, com o homem que acabará de perceber erros na sociedade que ele faz parte e ao invés de agir de uma maneira racional, parte para a violência, demonstrando assim a primitividade que nos move – Tudo o que os líderes queriam, não?-. Enfim é tarde demais.
É uma pena que alguns conteúdos sejam desconhecidos ou incompreendidos por muitos, pois esse “A Servidão Moderna” é um brilhante estudo sobre a nossa realidade e o quão limitado somos. Aliás, são reflexões recorrentes, mas que aqui, em uma obra tão complexa e verdadeira só comprovamos o inevitável: “O homem é o lobo do homem”.

As coisas que você tem, acabam te possuindo” – frase citada e que foi retirada de um certo filme chamado:  “Clube da Luta”. 

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