Mente que brilha eternamente
A cena inicial de Brilho Eterno não poderia ser melhor.
Joel, nosso herói, acorda em seu quarto e se prepara para ir ao trabalho.
“Pensamentos avulsos para o dia dos namorados, 2004. Hoje é
um dia inventado pelos fabricantes de cartões para fazerem as pessoas se
sentirem como bostas...”
Sem um motivo óbvio, aparentemente, ele segue outro rumo no
seu dia, que outrora seria apenas mais um.
“Não sei por que, não sou uma pessoa impulsiva...”
Eu, pessoalmente, não acredito que exista uma pessoa que não
seja impulsiva pelo menos uma vez. Às vezes, dependendo do que, claro,
precisamos seguir nosso coração e deixar a razão de lado. Só assim estaremos
aptos a refletir sobre nossas decisões e aprender a aproveitar o momento.
Perceba, por exemplo, que assistindo um filme, mesmo que seja um bem bobo, o momento que
você está passando dita a sua identificação com os personagens e seus
respectivos objetivos. Ou seja, o cinema tem o poder de trazer sentimentos
guardados pelo simples fato de ser sincero e, nesse ponto, Brilho Eterno de uma
Mente Sem Lembranças é perfeito.
Os dois protagonistas, Clementine e Joel representam o
oposto. E é fascinante perceber que até mesmo os atores exemplificam isso: Kate
Winslet sempre interpretou mulheres ricas e comportadas. Já o querido Jim
Carrey, não precisa nem falar não é?
O que temos aqui é, essencialmente, o oposto. E já que o
filme se passa pela visão/memória do Joel, pode ser que nem todas as
imperfeições de Clementine sejam verdadeiras, talvez ele só esteja distorcendo
as suas perfeições. Mais realista e sincero que isso é impossível. Essa ideia
central é muito identificável, seja para um idoso e toda sua experiência ou até
mesmo jovens e seus primeiros contatos com a paixão.
Buscamos a igualdade quando, o que nos move, é a diferença.
A base de uma relação é exatamente a troca. Como trocar o que já se tem?
Teimamos em acreditar que a igualdade é fruto de uma boa escolha quando, na
verdade, ser igual é respeitar a visão do outro, independente se concorda ou
não.
Qualquer pessoa que passou por esse mundo teve contato com
essas questões, e, quando penso nisso, fico emocionado com a coragem dos
criadores – Seja o roteirista Charlie Kaufman ou o diretor Michel Gondry – em
unir isso a uma linguagem e visual da cultura pop. Por exemplo, o que mais vejo
na internet é pessoas falando sobre a cor do cabelo da personagem, que captura
os sentimentos vividos em cada momento. Pela quantidade de gente que destaca
esse ponto, porque ouviu em outro lugar ou não, é possível perceber como a essa
difícil mensagem é facilmente transmitida para essa nova geração.
Somos filhos do audiovisual, internet, da cor, do
pop e da tecnologia como um todo. Nosso interesse não é mais no classicismo,
queremos viver mais em menos tempo, sentir mais de uma forma mais rápida.
Algumas linguagens se tornaram inacessíveis. Autores, antes aclamados, hoje são chamados de
vovôs. E você que reclama do “alienamento” dos jovens perante a uma programação
que, a seu ver, é de baixa categoria, saiba que você também já esteve alheio em
alguma fase da sua vida. A grande questão não é mudar, isso é inevitável. A
questão é estar preparado para mudança. A arte surge com uma importância
gigantesca – como sempre foi – para transmitir mensagens de outra época, mas,
com um visual descolado, personagens em meio a correria do dia a dia,
solitários, se questionando e questionando o amor que tem ou falta, cria-se uma
mensagem atemporal que dialoga muito bem com essa nova geração.
Fico boquiaberto com a construção por meio de nuances dos
personagens. Joel vai para Moultalk – sentindo o vento – e, em certo momento,
sentado em uma lanchonete vê uma mulher estranha de cabelo azul. Ele olha
timidamente para ela e, quando percebe que ela retribui o olhar, ele abaixa rápido a
cabeça e se esconde atrás do seu diário, onde desenha seus momentos e escreve
pensamentos aleatórios que, significativamente, representa o seu coração.
“Porque será que me apaixono por qualquer mulher que me dá o
mínimo de atenção”?
Agora, pergunto, qual homem tem coragem de dizer que se
apaixona facilmente? A verdade é que, muitas vezes, nos apaixonamos platonicamente. Alguém passando na rua, no ponto de ônibus, cinema ou praça,
vivemos rodeados de pessoas e, quando estamos sozinhos, nos questionamos sobre
a ausência de alguém, mas como pode? Se estamos rodeados de pessoas, porque não
conhecemos ninguém?
Simplesmente porque
não temos tempo. Estamos preocupados com a conta, estudos, trabalhos, compras
etc. Nem ao menos somos capazes de olhar para o lado hoje em dia. Seguimos de
cabeça erguida e caminhando apressadamente sem notar que tudo esta acontecendo
do nosso lado. Todos estão do nosso lado. Mas, infelizmente, o que realmente
queríamos gritar para o mundo, nós escrevemos em nossos corações. Resta-nos
olhar, olhares somente...
Raramente, na história do cinema, foram criados
personagens/ideias com tanto carinho. Percebam que cada roupa e objeto tem uma
importância enorme para a trama. Por exemplo, quando Clementine está dormindo
no carro e pergunta para Joel se ela pode dormir na casa dele, ela vai pegar
sua escova de dente,e esse é exatamente
o fim do começo e começo do fim. Mas, claro, o processo todo do esquecimento é
baseado em uma série de objetos que situam ambos em momentos bem simples, mas
extremamente importantes.
“Vou me casar com você. Sei disso.”
O esquecimento, como visto no filme, é simbolicamente a
nossa mania de querer superar as pessoas. Poucas coisas doem tanto como a
separação. Mas lidamos com ela de uma forma errada, ou melhor,
precipitada. Vemos esse momento como a hora de superar, passar por cima ou até
mesmo esquecer. Mas se uma pessoa entra em nossa vida, algumas por tanto tempo,
não podemos simplesmente esquecê-las. Temos que, mais uma vez, aprender a lidar
com a ausência. Momentos, discussões, sexo, carinho, olhares, sorrisos,
beijos... Tudo o que se passa junto deve ser imortalizado. O fim é uma questão
de tempo, e tempo para cada pessoa é diferente. A vida a dois é construída pela
aceitação do tempo do outro, mas, mesmo assim, às vezes, não conseguimos
entender o nosso próprio. No fim, separação é não estar bem consigo mesmo.
“Srta. Kruczynski não estava feliz e queria seguir em frente. Nós
oferecemos essa possibilidade.”
A mente que brilha eternamente é aquela que vive. Que se
atreve. Que se doa e aproveita. Temos pouco tempo nesse grande palco da vida
para apresentar nossos sentimentos de uma forma clara e,
principalmente, ajudar alguém a compreender os seus. Enxergamos o próximo como
meu, quando nem ele é dele. Precisamos parar de exigir a igualdade, para que
assim possamos desfrutar a diferença.
Cuidamos para crescer. Amamos para sermos amados. Vivemos
para sorrir. Momentos passam rápido, seja ele ousado (como deitar em um rio
congelado), romântico ou aventureiro, mas, o que verdadeiramente importa, será
eterno. Assim deve ser.
“Feliz é o destino da inocente vestal, esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, onde toda prece é ouvida, toda graça de alcança.”
- Joel, eu sou feia?
- Quando criança, eu me achava feia. Às vezes acho que as pessoas não entendem a solidão de ser criança. Como se você não fosse importante. Eu tinha 8 anos e tinha brinquedos. Essas bonecas. A minha preferida era uma boneca feia que eu chamava de Clementine. E eu gritava para ela:
- Não pode ser feia! Seja bonita! ... Estranho. Como se, caso eu pudesse transforma-la, eu também mudaria, magicamente.
- Você é linda – Disse Joel olhando nos olhos de Clementine. Em uma mistura de carinho, sinceridade e desespero.
- Joaly, nunca me deixe.
- Você é linda.
- Por favor, deixe-me guardar só está lembrança, só está! - Ele gritou.
“Abençoado os esquecidos, pois tiram o melhor de seus equívocos”
Perfeito! *_* Um dos meus filmes favoritos, toda vez que revejo amo mais.
ResponderExcluirQuerido Emerson,
ResponderExcluirQue texto poético, sensível e inteligente.
Adorei sua abordagem e essa imersão em nosso atual e 'sufocante' cotidiano.
Parabéns!
beijo enorme e visite o meu , ok?
bj
Obrigado pelas palavras Patricia. Visito sim, pode deixar! ;D
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