domingo, 20 de abril de 2014

Clube dos Cinco - Parte 2


Antes de ler sobre o filme, seria interessante você ler a primeira parte do texto nesse link.

Como está sendo difícil escrever sobre esse filme. Meu coração fica apertado só de pensar em como começar. Portanto, não me sinto preparado para destacar as centenas de cenas e diálogos especiais para mim, tamanho meu amor pela dedicação de todos os envolvidos dessa obra prima. 

Começamos então com um trecho da música do camaleão David Bowie "Changes": "...E essas crianças em que você cospe, enquanto elas tentam mudar seus mundos, são imunes às suas consultas. Elas sabem muito bem pelo que atravessam...”

Tem muita gente por ai falando sobre os jovens, mas poucos dispostos à ouvi-los. Diploma nunca vai te tornar mais humano, as pessoas são ou não. O conhecer é muito relativo. Eu apostaria que hoje os alunos não esperam conhecimento. Esperam, simplesmente, estar. Pode parecer escroto, vindo de alguém que está na educação. Mas não quero ser lembrado, aqui nesse texto, como um professor, quero que me leiam como um aluno, cansado do mesmo.

Sou aluno e acho importante destacar que me identifico com o marginal. Mais do que qualquer outro personagem. Mesmo que a neurótica me traga um sentimento de identificação também. Achei relevante, nesse texto, não mencionar os nomes dos personagens, só a sua classificação. O homem define, assim mesmo, de forma chula. Não se importa com sentimentos, quero aqui apenas simplificá-los. Para, depois, descobrir junto com vocês as belezas e medos por trás de cada personalidade.


Os anos 80 foi o ápice da popularização dessa nova geração perdida, da qual se estende até a atualidade. Em alguns casos até mais gritante. Explico, as guerras acabaram, tudo já está construído, os objetivos estão facilitados porque nossos pais nos dão a oportunidade que eles não tiveram. Cabe a essa geração se preocupar com coisas, outrora, banal. Mas evidentemente o grau de importância nada altera o sentimento. 

Acho errado quando um pai fala pro filho que a sua vida é fácil. Seus problemas são inúteis, que só se preocupam em estudar. Assim como acho errado o pai que fala que o filho não tem infância. Pois acaba criando dúvidas sobre o seu presente e desiludindo-o para enfrentar o seu futuro. Como disse antes, os anos 80 representam bem essa transformação que tivemos. As famosas tribos nunca foram tão proclamadas. As tribos passaram a servir, unicamente, para comparar o seu poder perante os colegas. Há poucos idealismos, não querem mudar nada, apenas assumir uma posição. No final do filme fica claro isso, quando o cérebro pergunta o que acontecerá com eles na segunda feira. A princesa responde da forma mais verdadeira possível que não irão se falar. É quando o cérebro se revolta e fala que nunca faria isso, ela, por sua vez, responde que é óbvio, pois sua "tribo" venera tanto as patricinhas quanto os atletas. Agora pergunto: Qual o ideal disso tudo? Eu mesmo respondo, a classificação dos produtos. Perceba que nesse diálogo já se estabelece uma elevação dos ditos populares sobre os demais. O que nada importa para a neurótica, que não precisa se assumir pois não tem amigos. 



Sabe aquela sensação, caro amigo ou amiga, de estar em uma festa e perceber que a sua presença de nada importa? Então, o jovem tem essa impressão constantemente. E o fato é que o sentimento respeita a realidade. Pois o mesmo não procura a verdade, procura o status. Se torna claro que o mesmo vai ficando invisível aos poucos. Como diria minha sábia mãe: "na escola, os alunos são recicláveis." O reciclável assume a tradução de novos rostos bonitos, novas tendências, novos namoros. A criança que tenta ser igual tem que, igualmente, ficar se reciclando, para não se sentir descartável nas festas dos amigos.

Ser descartável

Entramos então no ponto do ser descartável, dessa vez saindo das escolas para entrar na família. É inimaginável o poder que um pai exerce sobre um filho, ainda mais quando este deposita todas suas fichas no sucesso do mesmo. Sucesso, leia-se, que ele quer. Pressiona os garotos a serem algo, ou pior, se sentir como algo que não são. É o caso do cérebro e do atleta, por exemplo. Eles vão para escola e, em meio a toda diversidade possível, encontra-se aqueles que não tem carinho em casa. O marginal representa esse ponto. É importante lembrar que todos tem sentimentos, incluindo os jovens. E, na boa, eles tão cagando para textos e cálculos matemáticos, pois desde novos são ensinados que, sem isso, não serão nada. A escola não deveria apresentar uma única solução, deveria apresentar "o melhor de si." Significa basicamente que, independente do caminho que poderá seguir, o aluno tem que tentar ser o melhor. Dentro da sua própria escolha e fazer o bem sem querer nada em troca. 

A sociedade impõe uma imagem perfeita, estudos, notas boas, faculdade. Mas e daí? Isso é realmente o progresso da boa vida? Precisa-se de diploma para ser algo, ou melhor, o que é algo? Pois na prática não passa de um robô, sem coração e ambicioso. A busca pelo poder faz com que passamos para a próxima geração que a busca pelo poder é o que se deve fazer. O rebelde é rebelde por sentir que tudo está errado. Falta carinho, isso é difícil. Dar castigo é muito fácil. Não entendo, o educador novo chega cheio de esperanças, quer mudar todo um sistema. E percebe que nunca irá conseguir em menos de 10 anos. Descartando qualquer outra beleza que exista no ato de ensinar. Os cansados que me perdoem, mas se você chegou a esse nível de desesperança, saia de onde está. Procure outra coisa, não é justo continuar corrompendo cabeças inocentes.



O senso de realismo é importante para o educador. O saber que você nunca mudará a massa. Pode, claro, tentar fazer a diferença na individualidade. Resgatando o dom perdido, atrás de uma cortina imensa de ideais. Esse ponto está explícito quando o "lixeiro" da escola conversa com o professor e diz que o mesmo é que mudou. As crianças continuam a mesma.

Posso resumir esse pensamento com um diálogo do marginal com o professor, quando o segundo termina dizendo:

- "Visite Bender em 5 anos e verá o quão divertido ele é"

Essa é a visão deturpada que temos. De que a visão diferente, o estilo estranho ou a opção sexual faz com que apareça, em um passe de mágica, um telão que exibe constantemente todo o futuro perdido que o aguarda.

A vida escolar é mais complexa do que parece. Questões sexuais, por exemplo, são tratadas de forma infantil. Enquanto o medo é mais real do que os moldes fantásticos que se coloca em cima da questão. Se assume ser virgem, é puritana. Caso contrário, é vadia. A menina está no alvo dos olhares preconceituosos constantemente, como que os adultos exigem que eles estejam abertos para fazer pergunta. PORRA!


Para nós, alunos.

Eu acredito em nós. No nosso potencial. No nosso futuro, seja ele onde for. Não quero que sejamos os mesmos da geração passada. Quero que sejamos extremos nas nossas escolhas. Se vamos ser marginais, então vamos detonar com tudo, inclusive a falsidade. Se vamos ser políticos, então vamos fazer... para só depois roubar. Nossa geração perdida pode ser encontrada dentro de cada um. É fácil falar sobre esperança, difícil é saber que a realidade é bem mais severa do que os adultos querem nos passar. Livros não nos ajudam. É o olhar. Você pode ler o autor que for, se o teu coração não criar interpretações para aquela leitura, esta será desperdiçada. Vamos aprender a pensar. Mentira. Vamos trocar o que temos, nossas diferenças. Vamos ser jovens e mandar o formalismo e posturas uniformes para puta que pariu. Quando precisarmos desabafar, como visto no filme, ninguém zoara com a nossa cara. Porque apesar das diferenças, todos entendem que a dor, por mais banal que seja, é real. Somos seres humanos, apesar de tudo. Sabemos que todos precisam de carinho e amor. Não tornaremos nossos pais, não deixaremos nossos corações morrerem, não seremos melhores, muito menos piores. Seremos diferentes de tudo.

Somos perdidos mas, acima de tudo, um. E, sendo um, nunca só estaremos na festa. Nossa existência é especial. E assim deve ser. 

- Porque você está sendo tão legal comigo?
- Porque você está deixando.

Clube dos Cinco - Parte 1


Eu sempre me senti perdido. Isso só agravou na minha adolescência. Minha existência era sentida como desnecessária, meus objetivos eram inexistentes. A rua se tornou minha amante, a solidão minha mulher. "Minha mulher", nesse mesmo sentido de posse, possuo o estar só. O mundo se tornou uma tela de cinema e, por isso, eu me torturava por apenas assisti-la, enquanto pessoas iguais a mim se desenvolviam como protagonistas. Eu, mero coadjuvante da loucura do existir, comecei a apreciar a diferença. Me distanciando ainda mais dos amigos, das namoradas, da vida. 

Sempre amei o indivíduo e odiei a massa. No auge da minha rebeldia, custava acreditar que as pessoas precisam usar máscaras para esconder segredos guardados do coração. Para mim, todos deveriam ser os próprios, assumindo ter medo, assumindo estar perdido, assim como eu. Será que sentia tudo aquilo sozinho? Ou era o único que pensava sobre a questão? 

Enfim... nossa vida social é, hoje mais do que nunca, construída através das diversas tribos que se formam. Em base a estilo musical, pensamento político/filosófico ou até mesmo opção sexual. Criando, assim, uma rede de diversidade e, perigosamente, um turbilhão de preconceitos. Buscamos estar perto quando, na verdade, ficamos cada vez mais longe um dos outros.  O outro se torna reflexo no mesmo tempo que a nossa própria imagem se desfaz. Se consome. Se esquece.

Qual é o sentido de ser jovem? Qual é o problema em querer ser eterno? O que seremos?

Reflexões existenciais existem desde que o homem pisa na sua linha do tempo. Suas ambições são moldadas por outrem. Seus educadores depositam todos os seus fracassos, como se o filho fosse o Superman, o escolhido para sustentar toda uma esperança. Ora herói, ora vilão. Mas é o filho que será o salvador de toda uma geração afogada na própria ilusão. 

Ter uma família não é fácil. Entregar a sua criação para estranhos é mais ainda. Os pais protegem - ou deveriam - até o filho criar asas e ir para uma casa cheia de criações chamada: escola. É esse o primeiro contato social do filho, onde ele será exposto a diversidade e tem, como meta, a responsabilidade de entender que elas existem e precisam existir. Deveria, ao menos. 


Educação é uma sucessão de "deverias". Ensinar é uma prática nobre da qual, hoje em dia, se encontra um pouco banalizada. Se buscarmos na essência, a palavra paidagôgós ou pedagogo é uma junção de paidos ( criança ) com agôgè ( ação de conduzir ). Era representado no dia a dia pelos escravos que acompanhavam as crianças até a escola e ajudavam depois nas tarefas escolares. Repare bem na palavra escravo. Associando imagens que conhecemos através da mídia, com a função de ser um pedagogo, chega a ser curioso pensar que uma função, hoje tão cobiçada, começou com pessoas livres de qualquer interesse pessoal. Ora, eram pessoas até mais relevantes que os grandes senhores, porém, escravos. 

Como e quem pode ensinar?

Para terminar a parte de citações e entrar na realidade escolar que temos na atualidade, busco aqui uma fábula do grande Rubem Alves, que se chama "O Currículo dos Urubus":

“O Rei Leão, nobre cavalheiro, resolveu certa vez que nenhum dos seus súbditos haveria de morrer na ignorância. Que bem maior que a educação poderia existir? Convocou o urubu, impecavelmente trajado em sua beca doutoral, companheiro de preferências e de churrascos, para assumir a responsabilidade de organizar e redigir a cruzada do saber. Que os bichos precisavam de educação, não havia dúvidas. O problema primeiro era o que ensinar.

Questão de currículos: estabelecer as coisas sobre as quais os mestres iriam falar e os discípulos iriam aprender. Parece que havia acordo entre os participantes do grupo de trabalho, todos urubus, é claro: os pensamentos dos urubus eram os mais verdadeiros; o andar dos urubus era o mais elegante; as preferências de nariz e de língua dos urubus eram as mais adequadas para uma saúde perfeita; a cor dos urubus era a mais tranquilizante; o canto dos urubus era o mais bonito. Em suma: o que é bom para os urubus é bom para o resto dos bichos."

Esse trecho é interessante para compor uma ideia que desenvolverei a seguir, mesmo que não tão explícito, que diz respeito ao único interesse. Professores irão se identificar com qualquer conversa sobre planejamento de aula, até porque é uma das partes mais complicadas que existem, e já se depararam com a questão "o que ensinar?". A escola entrega um caminho a se seguir, mas cabe a um indivíduo traçar o seu próprio, desprendendo-se de qualquer interesse pessoal. De forma que sinta os alunos, a realidade deles. De que adianta ser um urubu e querer que todos sejam urubus? Um dos principais erros, ao meu ver, que temos hoje é a grade curricular voltada apenas para a decoração das matérias. O senso crítico e o olhar artístico são deixados de lado para dar lugar aos "cdf" da física. Há pouco espaço para a sensibilidade. 

Os alunos se perdem em meio a cobiça, cresce o distanciamento para com seus professores e os desajustados não são incentivados à exposição. Os sábios não conseguem falar. O preconceito aumenta, as tribos se tornam inimigas uma das outras e o jovem se vê como mostro.

Como disse, a educação é uma sucessão de deverias. Por isso o bom professor é aquele que consegue ser aluno. Que sabe que nada está literalmente completo. Que tão pouco sabe das coisas, apenas molda a informação. Respeitando a diferença, o passado e o sentimento do aluno. No fim, as crianças só precisam ser tratadas com carinho. Já que o espaço escolar assumiu outras funções sociais como igreja e a própria família, não custa se ver como ser humano, antes de qualquer diploma. 

Obs: 1 - Um texto que escrevi que pode acrescentar no conteúdo desse é o sobre a nossa mania de definir as coisas: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2013/04/definicoes-problema-ou-solucao.html

Obs: 2 - Logo publicarei a resenha do filme: Nesse Link


terça-feira, 25 de março de 2014

O Canibal ( 2006 )


Obs: Para o entendimento do texto, seria interessante dar uma lida na história da qual o filme foi baseado. Levando em conta que o relato é extremamente perturbador, assim como o site que indicarei: http://www.issoebizarro.com/blog/mundo-bizarro/armin-meiwes-o-canibal-alemao/. NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS!!!!

Eu não faço parte daquelas pessoas que se chocam facilmente. Não sei o quão relevante é, para o texto que desenvolverei, essa afirmação, mas eu "cresci" assistindo os filmes do Gaspar Noé, então a realidade banal fora jogado na minha cara inúmeras vezes. Claro, por visitar com frequência esse submundo do cinema, posso dizer que aprendi a respeitar as diversas necessidades que existem, seja sexual ou não. Enfim, há uma diferença entre aceitar e saber que existe. Assim como há uma diferença entre falar abertamente e concordar com tais atos. A única coisa que eu tenho certeza é que sabemos muito pouco sobre as bizarrices que acontecem todos os dias, muita coisa fica guardada, secreta, pois nós ainda temos a ilusão de que vivemos em um "semi-paraíso protegido por Deus", enquanto, na verdade, estamos simplesmente no inferno mesmo, queimando e sendo queimados. 


A proposta aqui é um pouco diferente, quero ser um pouco mais imparcial do que costumo ser, e ajudar a levantar as questões abordadas no filme. As quais, por sinal, eu me fiz na época em que conheci o caso do tão famoso "açougueiro mestre". É válido começar dizendo, que o primeiro contato que tive com essa história foi com a banda alemã Rammstein, do qual sou fã, com a música "Mein Teil". Se pegarmos o contexto, o título significaria algo como "meu pênis", mas não se enganem, pois a tradução exata é basicamente "minha carne" ou "minha ferramenta". O que não importa muito, porque o pênis/pinto/pau/bilau/caralho etc é ferramenta, é carne, é vida (?)

O que é vida? O que é carne? E, principalmente, qual a diferença entre o ser humano e os outros animais? Eu não tenho conhecimento o bastante para afirmar se existe canibalismo no reino animal aquela que parta de uma vontade constante, claro que o fator sobrevivência modifica tudo. O que quero dizer é: Os animais são melhores que seres humanos. Não que o homem seja um ser dispensável - mesmo que o seja a maioria das vezes - mas a nossa espécie é cercada de uma desmotivação gritante. O homem devora o homem, desde sempre. A começar pelo julgamento de valor, em base as opções sexuais e banalização do sentimento. É muito fácil se sentir sozinho e, através desse sentimento, o homem explora o seu lado mais sombrio. Se tornando assim um bicho. E olha que essa afirmação ainda insulta todos os bichos.


 Nunca acreditei em céu ou inferno, essa ideia da vida eterna - por mais que seja extremamente aconchegante - nunca fez parte do meu repertório de imaginações. Por outro lado, eu uso muito a religião para nos explicarmos, é tanto que acabei me transformando em um "ateu religioso" ( eu sei, trai o movimento ), não acredito em um Deus cristão, acredito no amor. Até mesmo quando só há dor. Até mesmo nas sombras.

Existe amor na falta de amor. Existe amor na morte e no ato de matar. Na maioria das vezes não somos capazes de compreender isso ou aceitar. Mas as proporções são idênticas ao Deus, é tão difícil imaginar quanto. Sendo assim, tanto o inferno quanto o paraíso existe dentro de cada um e a vida eterna existe na arte de cada um. Qual arte? A arte de amar. Mesmo odiando.

O que faz com que eu enxergue o choque, como mais uma das diversas formas de expressões que existem. Para voltar ao ponto que coloquei no início, um dos diretores mais cordiais que eu conheço é justamente o Gaspar Noé. Reparem que o "senhor do choque" avisa os seus espectadores para sair das salas, provoca a identificação com o sexo anal em "Irreversível". Faz pensar. Existe muito amor no senso de realismo de Gaspar. E muito realismo no amor de Noé.

O gozo é a carne. A carne é o sexo. 


O açougueiro mestre, com o pênis nos dentes, fez com que a ideia do possuir chegasse ao extremo, infelizmente esse é somente um dos vários casos que ocorrem e ocorrerão sempre. Há algumas pessoas que querem devorar e outras serem devoradas, será que formam um casal perfeito? É certo que o filme tenta resgatar esses questionamentos, posicionando-se através do olhar de uma estrangeira, como se afirmasse que a curiosidade sobre a verdade não é exclusividade de um país, um lugar. Ela é uma personagem curiosa demais e se vê desiludida quando, finalmente, assiste o tão esperado vídeo. Pois tem certeza que todas suas possíveis reflexões filosóficas sobre o caso são inúteis. A crueldade humana não se desfaz com algumas palavras bonitas. Viva a verdade! A maldade habita uma prisão perpétua chamada vida.

No fim, "você é exatamente aquilo que come".

Texto levemente inspirado na música "Mein Teil"

terça-feira, 18 de março de 2014

Deveria


Confiança inabalável, 
Confiança irredutível,
Confiança inflexível,

Confiança tarda, cantada, abusada
Confiança que confia
Confiança imaginária
Confiança que está, que nunca esteve
Confiança por só

Confiança por amor
Confiança por dó
Confiança aqui, ali e lá
Confiança que cresce, que desce, que nasce, que cria, que produz
Confiança que
Confiança onde?

Confiança é, confiança o quê?
Porque confiança?
Confiar e ser confiado
Confiar por fazer, um tanto abusado
Confiar é confidenciar
Confiar é acreditar
Confiar é ilusão,
De criar

segunda-feira, 17 de março de 2014

Lilika, 1970


Há inúmeras questões, mas tomei como exemplo uma criança, porque elas são testemunhas claras do que pretendo dizer - Ivan Karamozov

É com essa oportuna frase que começo meu texto. Que não somente resume o filme sérvio "Lilika", como também toda uma pesquisa minha voltada para a relação da criança com o meio. Sou um admirador há anos de filmes que extraem da criança - leia-se inocência - sua visão perante a realidade. Pesquisando audiovisual do mundo todo, me deparei com o cinema Sueco, que nos brinda com uma sensibilidade única com filmes como "Flickan", "Elina - Som om jag inte fanns", "4-Ever Lilya" do Lukas Moodysson diretor que, inclusive, tem todo um trabalho dedicado ao jovem.

4-Ever Lilya
Flickan
Elina
Como perceberam, eu procuro no cinema alternativo a criança, é fácil perceber que esses filmes tem muito em comum. Aliás, unido com o silêncio Europeu, fica realmente maravilhoso acompanhar a descoberta dos nossos pequenos heróis. Com isso, temos a querida Dorota Kedzierzawska, diretora polonesa com uma dedicação inacreditável em registrar todo o processo da vida. Ora, se dúvida, assista "Nic", sobre as dúvidas de uma mãe, "Corvos", o cuidado, "Eu Existo", o sem ninguém e, por último, "Hora de Morrer", a velhice. Seus filmes traçam a história do homem, eu, você, qualquer um. Ninguém. Somos todos frutos da mesma indecisão/amor/carinho/abandono. Dorota - como a chamo carinhosamente, ou simplesmente por não saber pronunciar o sobrenome - é a musa da minha vida e certamente vale ser citada pois, assim como o filme que escreverei, se encaixa perfeitamente na frase inicial.

Lilika


Filme Sérvio de 1970, dirigido pelo Blanko Plesa, que mais tem trabalho como ator do que diretor. Essa obra é tão difícil de achar que nem eu lembro como consegui. Então infelizmente não vou conseguir colocar o link pra download, mas merece a investigação de pessoas que entendem melhor do que eu de torrent. Enfim, conta a história da pequena Sandic milica - interpretada brilhantemente pela Dragana Kalaba - que é mal tratada constantemente pela mãe que, por sua vez, é mal tratada pelo marido. Ou seja, uma família disfuncional que faz com que, a menina, só tenha atenção para uma pessoa: Seu irmão, ainda bem novo. Ela não liga nem para ela mesma, honestamente. É tanto que começa fazendo pequenos furtos de frutas para o irmão, até se tornar em algo rotineiro. Unido a isso, temos a descoberta sexual, que se apresenta de forma bem sútil, mas muito significativa. Sútil até porque ela não se preocupa com as suas próprias experiências, tudo está muito vago para a pobre garota, seus desejos são deixados de lado pelas suas obrigações.

Sempre com o mesmo vestido cinza, exteriorizando o seu coração, são poucas mas especiais as cenas em que ela é criança. Destaco a mais linda do filme:

Ela fala para o seu amigo que poderá fugir se a instituição for pegá-la, por causa dos furtos, extremamente preocupada em deixar o seu irmão com os "pais" ela convida o seu amigo para fugir com ela e, como recompensa oferece um beijo, mas um beijo como os adultos. Claro que, depois dessa cena, lembrei imediatamente do "Eu Existo", onde tem uma cena muitíssimo parecida com essa e igualmente maravilhosa. A dor do abandono faz com que a maturidade bata na porta antes do esperado. A vida se torna uma estrada chata, sem parques de diversões e sem gargalhadas. O beijo se torna um símbolo de crescimento, um beijo como adulto representa uma prisão.


Prisão esta que está presente á todo momento, acompanhado por uma trilha intimidadora, "Lilika" tem um desenrolar triste, nada se explica, tudo se mostra. Tem que estar disposto a ouvir o silêncio e, como bons adultos, nos tornamos crianças para ouvir algo que não se fala. O olhar diz muito.



Uma história banhada em guerra, como a própria garotinha narra o quanto a guerra prejudicou sua vida, ironicamente a própria brinca que está em uma em dado momento. Com uma pitada de abuso, abuso psicológico, abuso pelo abandono e outros que ficam escondidos, só visíveis para os dispostos a entender, o filme é um tesouro perdido.

domingo, 9 de março de 2014

Todo lo que tú quieras ( 2010 )

 

A dor da perda talvez seja a mais frustrante que exista. Se pensarmos, somos os únicos animais com consciência da finitude da vida, porém, é inegável que a mesma não adianta muita coisa quando acontece. Aliás, essa é uma palavra pertinente para quem já passou por isso, acontece, acontece, acontece, acontece... aconteceu comigo.

Temos a necessidade de depositar a nossa existência à algo maior, um outro plano, no qual a vida é eterna e o reencontro seja possível. Infelizmente eu não consegui ter essa crença, tive uma educação católica, com todas essas lindas histórias de "fazer o bem para ganhar o sempre" mas eu não consegui acreditar. Resta-me refletir sobre a morte como uma possível imortalidade construída pela arte, aqui na terra, claro. Por isso prezo tanto pelas inúmeras mensagens que diretores, roteiristas, atores e atrizes nos deixam. Eles, assim como nós, são humanos e, inconscientemente ou não, sabem que o seu trabalho significa mais que "fama de passagem", é um registro eterno, nem que seja nos corações de inocentes admiradores. Sendo assim, é fácil identificar o artista e o nome. Por essas e outras, eu escrevo sobre o cinema alternativo para resgatar a arte invisível, não para ser conhecido como cult. Mas, de fato, queria sim ser associado. O cinéfilo é, antes de mais nada, um amigo do audiovisual e, como bom amigo, nunca o quer apenas para si mesmo. Ele divide. E, por essa mesma razão, é fácil identificar a divisão por paixão e por interesses pessoais. 

Enfim, todos precisamos sobreviver, o cinema se tornou mais uma das diversas lojas que existe. Como perceberam, sempre antes de escrever sobre os filmes, eu gosto de resgatar as reflexões que eu tive durante e, aqui, tento destacar a falta de atenção para com algumas obras. Tem muita gente falando de cinema mas, infelizmente, pouca gente falando de homem. Como disse, feliz aqueles que fazem do cinema o seu sustento mas, por favor, não se esqueça de dividir, pelo menos, a importância da arte audiovisual para as pessoas. A importância da procura, da pesquisa, não didática, simplesmente estar aberto para experimentar. Só assim a ideia da imortalidade será revivida, não apenas para um seleto grupo, mas para todos. A mensagem não precisa - e nunca será - clara para todo mundo, mas sem dúvida todos sentirão. 

Todo lo que tú quieras 

Leo e Alicia são casados e moram com a filha Dafne, de quatro anos. Como numa família tradicional, a mãe preocupa-se em cuidar da filha e educá-la, enquanto o pai vive fora de casa, trabalhando. Contudo, a morte repentina de Alicia por um ataque epiléptico abala radicalmente esse equilíbrio familiar. Sentindo uma falta brutal da figura materna, a menina tem grandes dificuldades de superar a perda. Tentando atender como pode as demandas da filha, Leo chega ao ponto de renunciar a si próprio, colocando em jogo sua própria identidade.


Então, é incrível como alguns filmes escolhem quem o assiste. Há três anos encontrei o poster desse filme, e li o seguinte: "ele abandonou a sua própria identidade." Assisti dois dias depois, e logo no inicio adentro no mundo dos transformistas, com diversas fotos de transformações. Imaginem, eu não sabia de nada, e nunca passou pela minha cabeça que o filme iria usar algo tão recriminado pela sociedade para compor um "acontecer" tão natural quanto a perda. E como é bonito.

Eu sempre falei que, se eu fosse ator, queria interpretar três personagens - mesmo que eu tivesse que escrevê-los - um palhaço, uma mulher e um morador de rua. Muito por conta do visual. Sempre fui um admirador das cores, mesmo que me enxergue em preto e branco. É incrível como a maquiagem te faz outra pessoa, como o sexo interfere nos olhares de outrem e suas condições financeiras e vestimentas aumentam o julgamento.

Julgamento. Essa é outra palavra muito forte no filme, quando um dos personagens mais interessante que eu já vi fala "Eu já vi esse olhar muitas vezes na vida, são os olhos do julgamento." Aliás, esses dois lados serão discutidos, mesmo que bem intimista, durante todo o filme. A sociedade e o indivíduo.


Eu sou um amante de pessoas, porém, na sua individualidade. Não gosto das massas, pois elas são falsas. As pessoas se transformam para se adaptar ao meio, essa transformação, da qual eu também sou refém, não me atrai. Um ser só é verdadeiro quando sozinho. Uma cena que identifica isso muito bem é quando Leo, o protagonista, está destruído por dentro mas continua conversando sobre o trabalho com o amigo, como se nada tivesse acontecido. Até que o amigo após o fim da conversa, pergunta se está tudo bem e é ai que ele começa a falar dele mesmo, onde solta "honestamente eu não sei".

Uma coisa que preciso destacar é que, o transformismo, serve apenas para compor. Não é o objetivo do filme conversar sobre a questão, até porque da mesma o único ponto relevante para trama é a maquiagem. Como disse, misturado com a fotografia do filme, um tanto quanto pesada/escura, representa o luto. A diferença mora no fato que, mas do que simplesmente o luto, a maquiagem representa a lembrança. E ficará claro isso em breve.


Esses outros elementos, como o transformismo e preconceito só existem para expor essa ideia da diferença, esses extremos chamados "só" e "junto". E o quão isso interfere nos seus próprios conceitos. Veja, por exemplo, que quando Leo está com a Marta, um possível romance, ele despreza e ofende Alex e depois recorre a ele para ajudá-lo a se transformar na Alicia, a mãe da garotinha. 


Como disse, Alex é um dos personagens mais interessantes que eu já vi, pois ele representa tudo isso, a massa. Tanto é que fala sobre o preconceito/julgamento/olhares com muita propriedade em uma das cenas mais bonitas do filme. 

- Você quer falar com um viado de merda?
- É exatamente isso que queria dizer. Quero que me perdoe pelo outro dia. Eu não quis dizer isso.
- Não? Marta disse que sim, que foi exatamente o que queria dizer. Por que me odeia tanto? O que te incomoda em mim? Minha homossexualidade ou minha velhice?

Agora, caros leitores, imaginem essa cena sendo interpretada pelo Juan Diego Botto e José Luis Gómez, um dos maiores atores espanhóis que existe. Aliás, Luiz Gómez entrega um Alex poderoso, no que diz respeito a sensibilidade corporal. É incrível o domínio do ator com o seu corpo que, misturado com a sua voz penetrante, soa como uma entidade confortante, amiga e sabia.


Não poderia deixar de falar mais sobre a relação pai e filha. A menininha, que por sinal é curioso tentar imaginar como é possível tamanha atuação, mesmo sendo tão jovem, tem um complexo muito grande. A falta da mãe, ou melhor, de uma presença feminina, faz com que ela crie ilusões constantes, como esconder o pai com uma maquiagem. Pode soar, ao final do filme, que o pai mexeu com o psicológico da pobre garota, mas aqui tento explicar uma coisa, nunca podemos assistir um filme e interpretá-lo pelo que ele mostra visualmente. A arte é uma entrega da qual você pode depositar todas as suas experiências e contribuir para que aquela seja ainda maior. Isso não é se iludir com o que assiste, é criar um processo contínuo de interpretação, de modo que o filme signifique ainda mais.

Voltando, o transformismo do pai é, imaginem comigo, uma criação da menina. Digo, de verdade mesmo. O personagem pai se traduz como o olhar da menina, enxergamos ele como o pai tradicional no início - que trabalha muito e chega em casa cansado - porque a menina o enxerga assim. Depois, quando ele vira a mãe é porque ela quer. Ou seja, é como se todas as cenas representasse os olhos da garotinha e a maquiagem a lembrança da mãe, não é a toa que citei a fotografia, um tanto quando triste.


O filme se resume em dois pequenos momentos. Quando ela começa constantemente chamar o pai de mamãe, Leo se desespera, procurando nos olhos da filha a sua própria identidade pois o mesmo não sabe mais quem é. Ela repete "mamãe, mamãe, você é a mamãe" até que, sensibilizada pelas diversas implorações, ela fala "papai". Essas repetições, até chegar em pai são frenéticas, quase que um gozo. Aliás, seria uma perfeita analogia. É então que, após isso, o pai abraça a filha e, na cena seguinte, vemos ele vestido de mulher novamente. Ou seja, ele só estava interessado na palavra. Pois o olhar da menina continuaria o mesmo e ele sabia disso, pois na individualidade essa maluquice fazia sentido e, fora de casa, era só um simples transformista.

Outro ponto e, assim concluo o texto, é justamente o final do filme. Quando eles estão em um quarto de hotel e a menina fala que está com saudades do papai. O pai vai tirando a maquiagem, peruca e, lógico, a menina pede para fazer. Com suas pequenas mãos tira a sua maquiagem, delicadamente. Como se aquela visão não mas fizesse parte da sua vida. E fala que "se quiser ver a mamãe, fechará os olhos" enquanto questiona os ferimentos do papai.


Esse é o poster do filme. Foi assim que o conheci. E, indicando esse filme, eu me imortalizo. 

terça-feira, 4 de março de 2014

Geração lepo lepo



A internet traduz uma situação antiga, lá dos nossos antepassados. Onde, movido pela nossa eterna necessidade de desabafar com o outro, procurávamos pelos gestos a compreensão. Estamos gesticulando diariamente, pedindo atenção. A linguagem se transformou, diante a procura de diminuir as palavras. Aliás, a diminuição das palavras é só um pretexto para fugir das regras.

A nossa realidade virtual é a última esperança dessa geração de sair do óbvio. Temos aquela doce ilusão de que, aqui, quem manda é os jovens. Nós dominamos a linguagem da internet. A mídia está vendendo anúncios para nós, com o nosso formato de ideias, aquelas bem rápidas e resumidas.

Resumimos ideias filosóficas antigas em frases sobre uma foto com fundo preto. Nossos pensadores do cotidiano são os vlogs e blogueiros. E nós, pobres jovens, precisamos apoiar nossos ideais em ídolos momentâneos. Até as músicas estão saindo em um formato veloz, onde só é necessário uma frase tendenciosa e que rime, de modo que eu possa simular o ato sexual com ela.

Necessidades desnecessárias. Ou o princípio de uma revolução (?)

A linguagem modificada ou todo esse tempo nunca soubemos o que é linguagem?

Brincadeira de crianças ou crianças cansadas de serem dominadas por adultos?

Adultos indiferentes? Ou medrosos diante uma terra onde não são eles os mandantes?

Mundo virtual, doce realidade. Somos entregues a exibição, na nossa melhor versão. Sorridentes, bem vestidos e em festas. Enquanto, diante a horrível realidade frustante do meu dia a dia, nós choramos. No final, somos todos inerentes a vontade de receber elogios, mesmo que igualmente rápido e falso.

Senhoras e senhores, apresento-lhes a ilusão. Também conhecida como guerra.
Porque nessa terra, não há regras. Nós mandamos. Jovens e imbecis. Mas, acima de tudo, sonhadores.

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Pequena Loja de Suicídios


Em um mundo imerso em depressão e desesperanças, uma família ganha a vida vendendo artigos para ajudar pessoas a cometerem suicídio. Entretanto, os negócios da família enfrentam problemas quando o filho caçula decide mudar de uma vez por todas essa realidade. Baseado no romance de Jean Teulé.

Mesclando o charme Francês com a depressão que ronda o nosso dia a dia - independente do país, estado, cidade etc. - eis que surge essa animação melancolicamente palpável. A pressa que vivemos hoje e a necessidade de se encaixar na sociedade tira a possibilidade de fazer aquilo que realmente gostamos. Construindo, então, uma geração fracassada. No sentido amplo da palavra, o se sentir fracassado por nunca ter tentado mudar, seguir o rumo que sempre sonhará. Muitas histórias despertam esse desejo oculto pela liberdade, no cinema temos, por exemplo "The Master" do Paul Thomas Anderson, em livros podemos citar o "Apanhador no Campo de Centeio" e assim por diante.

A liberdade está jogada na arte, pois vários artistas veem nela uma real possibilidade de ser universal. Por essa e outras coisas, eu acredito fielmente que "A Pequena Loja de Suicídios" é um filme que fala de todos e, consecutivamente, para todos. Ainda que entregue com amor, mesmo diante a sua depressão e repulsa. Ele é carinhoso, extremamente, eu diria. 


No maior estilo Tim Burton, temos personagens esquisitos, um tanto quanto distorcidos. Desde o seu visual até sua própria existência. Claro que a loja já se apresenta como um personagem importantíssimo para a trama - inclusive eu o considero o personagem principal - mas os personagens brilham muito, pois são eles que ajudam a construir uma certa "admiração" pela loja. Entendemos o que é a loja através da música, já fica claro que eles vendem a morte e, sendo assim, os clientes deles nunca voltam, ou melhor, não podem voltar. Então é comum que seja dito ao cliente coisas como "péssimo dia", "adeus", etc. E, agora pergunto, não é exatamente assim que nos comportamos hoje em dia? Caros amigos, pensem comigo, quantas páginas no Facebook existem com o nome "depressão"? Depressão da coruja, depressão da psicologia, filosofia etc. Além, claro, dos inúmeros vídeos de meninas divulgando a automutilação. Não que eu esteja dizendo que seja frescura, coisa de gente boba, pelo contrário, eu dou muita importância ao que se sente, principalmente jovens, mas nossa geração fora criada para não gostar das coisas. Por isso é mais fácil escutar um rock pesado do que ouvir pessoas chatas falando coisas imbecis. Será?

O próprio blog Cronologia do Acaso é uma prateleira de melancolia. Até porque eu só escrevo em base à ela, por sinal, eu não consigo escrever sem música. Blues, Jazz, Indie, Folk, são algumas coisas que escuto para escrever. O que elas tem em comum? A "liberdade". Nem que seja do bom gosto ( ^__^ )

Voltando ao filme


O pai vende a morte e o faz como uma arte. Ele se empolga, canta, sabe tudo sobre o ato de se matar. Porém, continua vivo - irônico isso né? Temos uma inversão de objetivos sobre o ato da venda. Se na nossa realidade queremos sempre que o cliente volte as nossas lojas, somos obrigados a forçar uma simpatia para isso - sim, estou falando com vocês atendentes de loja de sapato, que eu costumo ignorar porque sou chato - no filme eles querem o contrário, fazer mal ao cliente e, depois disso, desejam que eles nunca mais voltem, pois só assim saberão que continuam sendo perfeitos. Só que esse esquema acaba por fracassar com a chegada do filho otimista que, unido com as próprias experiencias pessoais com a morte, eles vão tomando conhecimento do que fazem e porque não fazem consigo mesmo. A depressão, então, deixa de ser vendida para que, assim, possa ser absorvida. 

A depressão nunca esteve ali, prova disso é as cores vibrantes da loja, muito diferente do clima sombrio, cinza, daquela cidade ( Mundo? ). O filho representa justamente o otimismo, o sorriso. Ele traz as cenas mais lindas, como aquela em que faz sua irmã dançar nua, se libertando das amarras da melancolia depositada por seus pais. O fato de estar nua só engrandece ainda mais, onde temos todos os amiguinhos do protagonista bobos com aquela mulher linda e ele continua imóvel com um olhar extremamente doce. Como se o fato de estar despida só exaltasse ainda mais a verdade do momento.


Com canções extremamente deliciosas, "Le Magasin des Suicides" consegue, no seu final, ser otimista. Pelo menos eu tive uma vontade enorme de viver depois de assistir. Eles me venderam a morte para, só assim, entender o valor da vida. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Crianças… ( A-i-deul.. )


"Em 1950, o líder de um culto previu o fim do mundo. Dizia que o fim poderia chegar a qualquer momento, e que deveriam pagar o dízimo para serem salvos. Então os seus seguidores realmente esperavam o fim... e o dia chegou, 21 de dezembro de 1959. O que acham que aconteceu nesse dia? 
Nada. 
O interessante é que, quando descobriram que foi uma mentira, preferiram acreditar que sua fé tinha atrasado o dia do juízo, ao invés de acreditar que tinham sido enganados. Não aceitaram que erraram pois seu mundo teria desmoronado. Apegaram-se ainda mais a fé. A natureza humana é tão mutável."

O cinema Sul Coreano é, hoje, o mais comentado do mundo. Não por ser moda, ou algo do tipo, o país realmente passa por uma ascensão cultural muito grande, principalmente no audiovisual. Seus filmes são de uma qualidade inacreditável, destacando-se, não exclusivamente, pelos gêneros policiais e suspense. Mas há dramas sensacionais - e bota sensacional nisso.

É o caso, por exemplo, do delicado "Neukdae Sonyeon" que consegue, mesmo abordando um tema clichê e alvo de piadas ( saga Crepúsculo, eca ) ser extremamente bacana de se assistir. E, confesso, eu me emocionei muito. Não é só isso, tem dramas, animações, como o "Tsunami", enfim, é uma infinidade de opções para quem quer se aventurar em uma linguagem completamente diferente e, no mesmo tempo, tão próxima daquela que estamos acostumados. 

Vale ressaltar que a Coreia do Sul vê os seus próprios filmes e isso, caro amigo e amiga, muda tudo. Procura por parte do povo leva à estrutura e profissionalismo. O que entretêm as famílias lá é de uma enorme entrega e, honestamente, isso enche o meu coração de alegria.

Crianças… ( A-i-deul.. )


Filme de 2011, dirigido pelo Kyoo-man Lee ( o qual eu desconhecia ) é a confirmação do que escrevi acima. Usando como tema um assunto muito conhecido e discutido, até no recente "Os Suspeitos", ele se concentra na investigação de um caso, onde cinco crianças sumiram após terem ido caçar salamandras no Monte Waryong, é cogitado, e bem provável, que estes garotos nem chegaram no destino. Aliás, é baseado em fatos reais.

Temos então um detetive que se une à um professor de uma universidade e, juntos, procuram entender o que aconteceu. Mas deixam-se levar pelas suas próprias crenças e ilusões, fazendo com que, mesmo que bem escondido na trama, a procura das crianças se perca em meio a procura do reconhecimento.

O professor tem ideias estranhas, parece que está a todo momento indiferente aquela situação. Eu enxerguei esse personagem como um adorador das respostas. Mas, em uma situação real do desespero, resposta pode não significar nada. Esse ponto é justamente o que me deu sono, principalmente a primeira metade do filme. Ficou algo confuso na minha cabeça, apesar das inúmeras tentativas de encontrar alguma coisa, me pareceu existir um "desdém" por parte de todos e, unido a isso, não temos muito contato com a família dos garotos. O que vamos entender na metade final, onde finalmente eu joguei o meu sono no lixo e prestei atenção.


Toda a sua narrativa lenta e momentos forçados - como os cálculos esquisitos do professor doidão - dão lugar a um choque grande. Não é nenhuma surpresa ou alguma coisa jamais vista, mas é triste. A "descoberta" nem é o que vale a pena porque, convenhamos, eu já tinha descoberto desde o início do filme, mas tem um novo elemento que mexe com qualquer ser humano: Família.

Entra em cena as consequências daquele caso nas famílias, a fragilidade que toma conta, principalmente, das mães. Além do mais, eles foram alvos de desconfiança dos investigadores, que teimavam em afirmar que algum pai estava envolvido no desaparecimento das crianças. É então que percebemos que o filme tinha ignorado a família pois a sociedade egoísta ignora a família.  Fica claro isso. Policiais corruptos, imprensa manipuladora etc. Precisamos de matérias. Sentimentos não vendem.


As famílias sofriam caladas, deixando claro que tudo isso se passa em 10 anos, e é isso. A única atenção especial era para os "investigadores", para os heróis fabricados. Ironia é que, a primeira cena do filme é um dos garotos correndo com uma capa vermelha, remetendo imediatamente ao Super Homem/Superman/Super. Ai, ai, como existem super hoje em dia, super professor, super policial, super jornalista, super, super, super. Esquecemos, infelizmente, das super mães, dos super filhos, das super famílias, dos super amores e das super perdas.


É, a vida é uma grande ironia. E o super é uma capa vermelha que nos faz crer na mentira. A natureza é mutável...

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cinema Paradiso


Minha vida sempre foi movida pelo audiovisual, lembro que passava o dia assistindo desenhos, séries e filmes, isso já aos 5 anos. Zorro, aquela série antiga, eu amava. E vários outros clássicos como A Bela e a Fera, O Rei Leão, os filmes da sessão da tarde... Engraçado, tinha um em especial que eu amava: Rambo.

Sim, é realmente bizarro uma criança gostar, é mesmo. Mas comigo era diferente pois eu era obcecado, toda vez que ia na casa do meu tio eu pedia para ele colocar a fita, meu tio, por sinal, tinha uma coleção extensa de fitas, eu amava brincar com elas. Tinha até filmes gore que eu lembro muito bem. Então meu tio me ensinou a gostar de filmes de ação, junto com o meu pai.

Meu pai, bem ausente no quesito sentimento, me faz relacioná-lo até hoje com os nossos pequenos momentos assistindo Bruce Lee, Charles Bronson e Van Damme. Misturado a toda essa dose de testosterona, minha mãe era ( é ) minha companheira da sessão da tarde. Aqueles filmes geniais como De Volta para o Futuro, Mãos de Tesoura, Lagoa Azul, enfim, como eu aprendi. Seja pelos próprios filmes que me deliciava, ou com os momentos que o envolviam. Minha mãe está até hoje nessa comigo, cinema se tornou uma ligação extremamente significativa na nossa vida, e eu diria que é o que me liga com todas as outras pessoas. 

Passando o tempo, mudanças me transformaram e o cinema foi, aos poucos, esquecido. Aquela magia da sessão da tarde não me encantava como antes, meu coração não correspondia com a mesma inocência. Enfim, fui crescendo. Em um momento difícil, aos treze anos, encontrei um filme chamado "Magnólia", até hoje não entendo como encontrei essa obra que fala sobre o amor e religião, no seu sentido mais profundo, se ligar ao outro. Ainda incapaz de entender tudo o que o filme tenta passar, aliás, até hoje me sinto incapaz, me tornei realmente uma criança "brincando de se encantar", por isso pesquisei os outros trabalhos do Philip Hoffman, Julianne Moore, William H. Macy, Melora Walters, Tom Cruise, John C. Reilly e, claro, do diretor Paul Thomas Anderson.

Me dediquei na profissão de pesquisador do cinema pouco conhecido, acho que queria assistir aqueles que não tinha muita voz. Me identifiquei com os gritos e desabafos do Todd Solondz, Wes Anderson, Gaspar Noé, Woody Allen, Dorota Kedzierzawska, Lukas Moodysson, Abbas Kiarostami, Jafah Panahi, e tantos outros nomes. Ia ao cinema, sozinho, e chorava com a grandiosidade do sentimento que despertava no meu coração, um sentimento tão forte de se estar entregue e ser visto. Nem que seja por uma tela gigante, com pessoas/atores igualmente gigantes. Tudo era muito grande para mim, pobre garoto, muito pequeno.

Não sei mais se escolhi o cinema, ou ele me escolheu. Não sei mais se ele é audiovisual ou eu sou. Me sinto como uma grande produção, com o carinho de um criador que só quer contar a sua história. Respiro cinema mesmo quando nada está relacionado à ele ( ou sempre está? ) encontrei nessa arte a junção das demais, o meio mais rápido para entrar em contato com uma outra cultura, um outro olhar, uma outra vontade, uma outra necessidade. Necessito, hoje, do cinema, de pessoa. Muito mais do que sentar e ouvir eu anseio por gritar tudo o que sinto. Aprendi que a vida é isso, desabafo contínuo. Nem que seja de você para você. Na rua, nas escolas, no cinema, na empresa, somos apenas grandes zeros. Infinitos.


Aprendi que não existe amor por cinema, existe amor à vida. Cinema é um reflexo da sua postura diante dos problemas do dia a dia. É o despimento pessoal de preconceitos bobos para, enfim, poder aceitar a diferença. Aceitar, aceitar, aceitar... Essa palavra ecoá na minha cabeça o tempo todo, me aceitar não é uma tarefa fácil, me ver como mais um também não. Não que eu me sinta melhor, pelo contrário, enfim, tentar justificar só vai piorar. Talvez seja a minha influência, assisti muitas comédias românticas e aprendi a ser clichê, assisti muito Chaplin e aprendi a fazer humor do drama e vice-versa.

Precisamos de algo que nos mova todos os dias, algo que torne nossa essência maior do que simplesmente "estar vivo".  Precisamos acreditar em Deus para seguir em frente, precisamos de um criador. Portanto eu digo, com todo o respeito do mundo, que o meu Deus se chama cinema. Não à sala lotada de gente comendo pipoca, não a loja do shopping, não o "Thor". A expressão. Cinema para mim se faz no exato momento que uma criatura, por amar o seu criador, compartilha pelo simples fato de ajudar. Se registrar isso, melhor ainda, mas existem inúmeros diretores nas ruas que me fazem me emocionar com tamanha capacidade de feder verdade. 

É isso, cinema é a verdade que existe em cada um. É o quanto eu posso, mesmo sendo humano e errando, olhar para alguém e poder admirar sua sinceridade. É ser amigo, seja colorido ou não, é querer bem e fazer o bem. 

É isso, cinema é a verdade que existe na maldade. A verdade no sexo. A verdade no gozo. A verdade no sorriso. A verdade da verdade.

Cinema é vida, amém.

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