quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Miss Violence, por Diego Alcantara


Recebemos um comentário muito embasado e de uma dedicação tamanha, referente ao podcast sobre "Miss Violence", filme Grego. Perguntei ao autor, -  que, inclusive, em breve se juntará conosco nas gravações  - o amigo e ouvinte - Diego Alcantara se eu podia postar aqui no blog suas interpretações. Muito bem, está ai:

Muito boa tarde Emerson e Sandro! É uma satisfação poder escrever o meu comentário a cerca do podcast lançado. Antes de tudo gostaria de me desculpar por não ter assistido a tempo a sua indicação de filme, Emerson, o Miss Violence. Ainda bem que fui assistir ao filme em outro momento de minha vida, no qual eu já estava mais estruturado mentalmente. O filme me comoveu e me marcou. Simplesmente assim!

No momento em que cenas mais fortes se passaram eu simplesmente gritei, gritei no desespero daquele que vê e que na excelente descrição do Emerson, se sente uma mosca a observar a vida alheia. Quando me refiro à forte quero deixar bem claro que é mental, assim como grande parte do filme é mental. Logo por ter essa construção o filme se torna mais marcante e maçante por ser algo que digamos assim está repreendido na pessoa.

Queria deixar claro dois aspectos do início do podcast que me deixou muito feliz, por causa do respeito que transmitiram, foi sobre o claro aviso de spoolers e informações que quebrariam a emoção passada pelo filme. O outro foi o embasamento sobre a origem dos filmes gregos e o seu destaque no cinema mundial.

Mas voltando ao filme Miss Violence, certamente alguns pensamentos meu acerca do filme são divergentes do modo que esse ou aquele pensará. Da mesma forma que o de vocês dois Sandro e Emerson, divergiram. Dada as considerações iniciais a partir de agora deixarei todas as minhas observâncias em torno dessa bela arte que me foi apresentado.

Aos minutos iniciais do filme você percebe que algo incomoda naquela suposta cena de alegria que me é apresentada, a felicidade, por assim dizer parece forçada. E as crianças não são condizentes com aquele “teatro” apresentado e encenados por elas mesmas. O olhar baixo das duas mulheres que até então não se consegue descobrir a correlação entre elas demonstra certa passividade para com o avô ancião.

Minutos quando a segunda mais nova das 4 filhas com recém feitos 11 anos, a primeira oportunidade com olhar de extrema certeza e convicção do que queria se atira rumo à morte certa, que é acompanhado pela quebra sonora e faz um quadro estático e agonizante permanecer por mais de 2 minutos.

Nessa pausa sonora o filme me tele transportou para o interior de mim mesmo em busca de respostas do que está acontecendo com esta família e mais especificamente com esta criança, que preferiu a morte em meio de um futuro a uma família “tão querida”. Enquanto você viaja em torno de lembranças (e nesse momento certamente você se remete a sentimentos tão somente seu.) o filme decorre com a família indo de encontro ao corpo estirado no chão. 

Só por este inicio já chocante você tem uma mera impressão sobre o que vai ser dessa família. No meu caso, varias vezes minhas impressões foram quebradas e jogadas ao ar como simples especulações. Por vezes, me senti tipo um vizinho bisbilhoteiro que observa aos outros por um único engulo, como uma fresta na madeira da porta.
Foi essa a explicação mais plausiva que consegui assimilar após assistir ao filme e ouvir ao Podcast. As imagens estáticas realmente dão a impressão que eu, telespectador, sou um intruso e que não deveria estar sabendo ou mesmo compartilhando do que se passa naquela família.

Passado a morte da garota, você acha que a família estará acabada e aniquilada, mas outro levedo engano, a família segue a vida inabalada e ao invés de lembrar-se da garotinha morta, eles dão um jeito de esquecer e apagar qualquer tipo de lembrança e objeto que remetesse a ela. Esse acontecimento marca definitivamente que há algo errado naquela família e você telespectador mesmo sentindo que não deveria, se vê atentado a continuar a descoberta de informações.

Passado outras cenas demonstra o poder que o “avô” tem sobre a família inteira que consiste do “pai-avô”, casado com a mulher anciã mais velha, portanto “avó”, que teve a filha 01 que supostamente teve relações sexuais com o “pai-avô” e teve os outros 03 filhos, sendo composto por um menino e duas meninas uma de 10 anos e outra de recém completos 11 anos, na qual se suicidou e deu todo o desenrolar ao filme. Além deste tem uma jovem que a meu ver seja irmã da filha 01, na qual surgiu de uma segunda relação sexual entre “pai-avô” e “avó”.
(acredito que esteja confuso, contudo sou ruim de lembrar nomes)

O parágrafo acima, só pode ser concluído observando os minuciosos e pequenos diálogos que os atores trocavam. Dentre outras cenas a que me chocou foi o pai-avô levando a própria família para ser estrupada em troca de dinheiro. Naquele momento vários questionamentos foram sendo respondidos. O descaso do “pai-avô” em relação aos empregos encontrados e a ligeira despreocupação quanto a isso me fez perguntar como ele conseguia manter o padrão de vida. A resposta mais que obvia era com o dinheiro da assistência social e com a prostituição das crianças.

Resposta essa que só me foi elucidada com esta passagem e o curto diálogo no carro. Do qual se revelou todo o porquê do suicídio. Este foi motivado pelo fato da jovem irmão da filha mais velha ter contado à pequena que acabara de fazer 11 anos que o seu destino seria aquilo que ela estava passando no carro, a prostituição a submissão e a própria morte interior.

Diante de dada afirmação agora se torna mais compreensível e tangível o sorriso estridente da garota ao pular da sacada do prédio, eu telespectador achava que o filme estaria por fim, por que mesmo sabendo de tal afirmação o clima ainda continuava tenso e escuro, sem nenhuma possibilidade de alegria.

Quando você acha que tudo está ok e o filme vai acabar acontece mais duas cenas marcantes o pai leva a jovem de volta para a casa e noutro dia lhe entrega o dinheiro meio que cobrado do carro. Lembrando que esse dinheiro na verdade é uma alegoria e quando a jovem cobra do pai na verdade ela o afronta demonstrando que mesmo submissa ela não esta complacente com o que esta acontecendo na família.

Junto com o dinheiro entregue o “pai-avô” vai até a filha mais nova, menos de 11 anos e a convida para tomar o tão prometido sorvete, no momento eu achei que o filme já tinha mostrado o que queria e boa. Mas não! O pai o leva na casa de um “amigo” que realmente oferece sorvete a criança, simples e até então inocente ela saboreia o sorvete em primeiro plano e com a imagem sempre estática se observa ao fundo uma suposta negociação na qual “pai-avô” e amigo trocam papeis ou suposto dinheiro.

O pai vem do fundo caminhando lentamente ao primeiro plano e começa a conversar com a filha. Tal abordagem já te deixa apreensivo com o que pode acontecer, na qual tal atrocidade pode ser também cometida a essa garotinha até então inocente em seu mais puro significado. Porem eu incrédulo acreditei na bondade do ser humano e me fudi mais uma vez. O “pai-avô” instiga a criança a dançar uma mesma musica que ela tinha dançado em outro momento.

Recatada ela meio que fica desajeitada por estar em um ambiente desconhecido. O “pai-avô” insistiu mais uma vez e por fim ela se rende e começa a dançar. Ambos, “pai-avô” e amigo observam-na dançar até que depois de alguns segundos o amigo se levanta e vai de encontro à menina, nesse momento a minha cabeça gira e o amor pela humanidade desaparece, cheguei a ficar tonto, falei mal e loucuras por tal atrocidade.

O pai complacente com tudo aquilo naturalmente tira uma foto da criança. Quero salientar que o olhar confuso da criança e buscando resposta para com o pai me emocionou de tal forma que o mínimo de piedade que tinha com ele desapareceram. Nesse momento em meio a duvida e a cara de medo da criança fica a certeza de que o futuro dela seria mudado dali pra frente.

[gostaria de fazer um adendo a respeito da foto, pois esta é uma pratica muito comum entre os pedófilos que são os de tirar foto com suas vitimas]

Não obstante depois da cena mais chocante do filme ao voltar para casa à menina vai buscar socorro a sua mãe que é filha 01 do “pai-avô”. Esta ficou imóvel e se deu a entender que estava acordada e ciente de tudo o que estava acontecendo e mesmo assim não prestou nenhuma ajuda a pobre criança que passara por tal atrocidade.

O “pai-avô” levou a criança para o quarto dormir e enquanto isso a avó deixava clara a minha percepção anterior pedindo para que a filha 01 fosse dormir e ignorasse tudo aquilo. De volta à cozinha, o “pai-avô” oferece uma xícara de sorvete à avó que enquanto a sua presença se faz no ambiente esta um clima tenso e ela faz que nem viu a xícara de sorvete. E continua a lustrar a prataria que esta em cima da mesa.

Ao telespectador mais atento pode se observar que a “super concentração” aos talheres que estão sendo lustrados pela avó é duvidosa e alem disso suspeita. Nesse momento tenso ela lustra 03 facas que “propositalmente” vai da menor até a maior. Nesse momento eu adoraria ser surpreendido ao ver a avó acertar com uma facada bem escancarada a cara do “pai-avô”. Porem isso não acontece, a cena se segue e o “pai-avô” fala à avó que já esta tarde e esta deveria dormir, ignorando-o ela continua as suas atividade e a imagem escurece.

Novo frame sons de passos indo de encontro à tela principal aonde esta a avó indo sentar e é interrompida pelos passos que segue a direita. Novo ângulo a filha 01 detentora dos passos anteriores começa a chamar pelo “pai-avô”, um silencio entre as palavras dela, marca a cena. Preocupada ela abre a porta e novo ângulo é exibido este novo mostra a mesma porta vista por dentro do quarto, ainda no foco a filha 01. Está olha para o lado da câmera, porém vendo supostamente alguém deitado na cama muito provável o “pai-avô”. Ela subitamente sorri e o telespectador sente certo alivio, meio que já prevendo o que esta acontecendo.

Após segundos ela abre a janela o que da a entender que a partir de agora a serenidade e tranqüilidade iria sondar aquela família já que em segundo plano ao abrir a janela se vê um corpo na cama e com as genitálias ensangüentadas, corpo este que supostamente é o do “pai-avô”. E ai o Telespectador respira aliviado, pensando que o sofrimento cessaria, contudo outro levedo engano é transposto, porque ao voltar para a sala aonde a avó se encontra sentada no sofá é observado que ela esta com um olhar de dominação observando a todas as três crianças e todo o sentimento de liberdade sentido há segundos atrás é quebrado repentinamente e assim acaba o filme.

Acredito que o filme trata de um assunto muito tênue, o poder. A dominação, por que em todo o momento apesar de quem fazer as ações muito claro é o “pai-avô”, não se sabe até que ponto os demais membros da família são complacente com tais atitudes.

A meu ver a filha 01 é passível a tudo que acontece daquele jeito por que ela foi a primeira a nascer naquela família logo ela não tinha e não tem noção de certo e errado, porque convenhamos, essa noção é repassada através de convivência, agora imagina, que convivência a filha 01 teve com outras pessoas para criar o senso critico dela?

Muito ao contrario é a filha 02, oriunda de uma segunda relação “pai-avô” e avó. Ela por ser a segunda já tinha um senso critico maior e foi vendo desde sua juventude o que acontecia com a sua irmã mais velha e em contraponto observava que outras famílias já não tinham isso e com base nas contradições sempre que pode confrontou o pai, já que ela foi à única que denunciou os acontecidos para os profissionais na escola. 

Já a avó, tenho minhas serias duvidas, acredito que desde sempre ela foi complacente com tudo e acobertava as atrocidades cometidas, como pode ficar bem claro no decorrer do filme. Também acredito que ela sim vai continuar a tocar o terror na família, tendo assim o poder da vingança, porém não descontado no seu cônjuge, mas sim nos produtos de sua relação.

A percepção desse filme vai muito alem imagens e entra no seu subconsciente. E é este a jogada perfeita que pode ser encontrada nesse espetacular e áspero filme grego. Meus parabéns aos criadores e executores do filme.

Obrigado Emerson por essa experiência que certamente não fosse você nunca teria em minha vida. E desejo que meu comentário seja lido na integra. Um grande abraço e até uma próxima oportunidade.


Diego Alcantara de Almeida

domingo, 24 de agosto de 2014

Ruby Sparks, 2012


Ouvi muita gente simplificando o filme para, apenas, "legalzinho". Quem sou eu para dizer o contrário, evidentemente, mas devo deixar claro que essa é uma pequena obra que mexeu muito comigo. E, honestamente, mesmo tendo conhecimento das suas limitações, "Ruby Sparks" é muito profundo. Eu diria, sem medo algum, que estamos falando de um filme denso.

Há algum tempo, eu tinha recorrentes sonhos com uma menina. Lembro-me muito  de seus cabelos castanhos e rosto arredondado. Não sei porque, mas dentre alguns dias eu ficava feliz por voltar a dormir e reencontrá-la. Os sonhos eram uma sequência da noite anterior - eu sei, é bizarro - parece que eu estava contando ( ou vivendo ) uma história dentro da minha cabeça. Não lembrava de detalhes ao acordar, apenas as sensações e, sinceramente, bastava. Não quero me colocar como o protagonista, muito menos dizer que é por esse motivo que me identifiquei, a única coisa que quero acrescentar com essa experiência, digamos, diferente, é: Histórias estão sendo criadas constantemente. Irreais ou não, não importa, a partir do momento que existe, é real. Isso vale para qualquer coisa, desde os mais misteriosos, passando pelos irrespondíveis até chegar ao sentimento, seja ele qual for.


Misturados a essa questão, podemos trazer - como o próprio filme, que é altamente metalinguístico e contemporâneo - o quão palpável se revela o ato de criar expectativas sobre alguém. O personagem principal, Calvin, não se relaciona em nenhum momento com uma namorada, somente com ele. O título "A namorada perfeita" se torna então uma grande ironia, vejam, ela não existe senão na nossa cabeça, ou seja, nós.
Muito se fala da falta de respostas que há no filme, parece bobo uma personagem saltar do livro e viver na realidade (?) Mas... Espera. Que livro é esse? O que é um livro? Não consigo classificá-lo de uma forma que não se aproxime de um portal, onde eu posso fugir e encontrar algo que me inspire. Por mais ficção que seja uma obra, o seu impacto sempre será real. 

"Ruby Sparks" começa em um sonho, a querida Ruby, surge quase como um anjo, em um lugar puro, como se fosse mesmo um "paraíso". Ela está envolta de um brilho muito forte, remetendo talvez ao calor, ao conforto, visto que o personagem principal, no caso o escritor, tem uma vida muito fria, longe de qualquer relação social que não seja motivada pelo seu trabalho literário anterior, ou seja, sua criação. Depois que ele acorda dessa primeira visão - mas quem pode confirmar que tenha sido a primeira? - vamos acompanhando o dia-a-dia do Calvin, um escritor, um tanto neurótico, que tem como amigos 1° seu irmão e 2° seu cachorro. Vive em uma casa enorme, maior ainda quando os cômodos sempre aparecem extremamente vazios, visto que só ele vive lá. Ainda mais, se não bastasse a falta de comunicação com o mundo exterior, é evidente no filme o problema dele com os telefones, ele nunca sabe qual deles está tocando, em uma metáfora interessante.


Depois de uma entrevista sobre o seu grande livro de sucesso, ele ouve pela primeira vez "você é um gênio!" no qual responde "não use essa palavra". Algo que no final do filme, ele se contradiz, remetendo-nos a elevação do próprio ego. Como se o ser gênio fosse o seu gozo e, para tal, precisaria de uma boa e delicada masturbação - que seria o próprio desenrolar do filme.
Pequenos elementos do filme nos direciona sobre a questão, dentre outras, principal, o controle. No segundo sonho que ele tem com a sua futura amada, eles se encontram no parque - dessa vez com um contexto mais realista - e conversam sobre o seu cachorro. Ela pergunta o nome e ele diz "Scott", acrescenta ainda que é uma homenagem ao escritor, romancista, F. Scott Fitzgerald, a menina real retruca com a reflexão "isso não seria uma forma de diminuição? Pegar o nome de alguém que se inspira e colocar no cachorro, de modo que possa colocar uma coleira nele e bater se fizer algo errado?". Lembrando, estamos ainda em um sonho. Ou seja, é a própria mente dele dizendo isso, como se fosse uma assombração. 


O que mais me impressiona, na verdade, é o potencial filosófico que vai se desabrochando aos poucos. Uma teia de significados, simples, divertidos e profundos que se unem para construir uma reflexão maior que seria o criador e criatura. Criamos constantemente sem, ao menos, entender a dimensão de criar. A vida a dois é muito complicada, então caminhamos em direção a estrada dos covardes, a ilusão. Vamos deixando de lado nossas convicções, o que realmente buscamos, para abraçar uma oportunidade, mesmo que várias outras foram perdidas. E o filme fala muito disso, de obsessão pelo tempo. Um drama sobre um invisível que, lá no fundo, se sentia o mais poderoso do mundo. Um ser narcisista, o que me faz pensar que todos somos. Todos somos reais e egocêntricos. Não precisa de caneta ou papel para escrever, existe outras ferramentas, outras almas. Canalizadores de medo.

Cometemos incesto diariamente, literários ou não. Lembre-se, a intenção não deixa de ser um evento real. Então, pergunto a você, em que tem pensado/imaginado ultimamente?



O escritor é um Deus. A menina a criatura perdida e a máquina de escrever sua alma. Todo relacionamento é fruto de uma ou mais criações e, após o término, estamos livres. Calvin, nosso herói/vilão controlava tudo, mas não controlava ele, ou seja, nada. Ele, no fim, após uma cena angustiante, apaga as memórias de sua cria, porém não apaga as dele. Está fadado a ser um ser amaldiçoado - ou abençoado.

"Todos vão pensar que sou louco. Não, vão achar que é ficção."


- Escrito por Emerson Teixeira que, talvez, você já tenha conhecido em uma outra vida. Posso ser real ou não, depende do que sentiu ao me sentir. Faça tudo o que quiser, mas, me prometa, não me conte o final dessa linda história.

Com carinho

domingo, 17 de agosto de 2014

We are the Best!, 2013


É impossível terminar de assistir "We are the Best" e não ter uma rápida vontade de raspar a cabeça, viver desprendido de várias correntes, como o próprio consumismo ou a "cafonice" de ser uma pessoa normal. Logo caímos, ou melhor, cai, por terra e descobri que existe um punk dentro de cada um de nós, não aquele que diz respeito ao gênero musical, muito menos aquela ignorância que te faz bater no peito e gritar: Vejam o quanto minha tribo é superior que a de vocês! Não, o punk atitude, o punk que se ouve e, sendo assim, sentida aos poucos, se revela uma arte adorável. Tão doce quanto Mozart. Ora veja, caro amigo(a), Mozart pode ser muito bem um punk, um vovô do rock, visto que é música, visto que é arte - atitude.

Doçura na voz de Hedvig, na sua versão espetacular de "sex noll två" música do KSMB, a qual, graças essa pequena grande obra, pude conhecer e me deliciar por, simplesmente, me fazer lembrar dessas três protagonistas, Hedvig, Bobo, Klara e Lukas, Lukas Moodysson. Opa, espera, eu disse três, me desculpem, eu quis dizer quatro. Afinal, Lukas é uma grande mulher-menina que entende muito das meninas-mulheres, as vezes muito mais do que as próprias mulheres-mulher. Lukas Moodysson é um presente, cria da arte, assim como seu último filme aborda filhas de um único elemento, a música.

O olhar das suas câmeras está de volta, meio frenético, meio focado e desfocado, meio aqui e lá, Lukas volta as raízes de um cinema por qual me apaixonei quando, oras bolas, ainda tentava me imaginar como um adulto, nos auges dos meus 13 anos conheci Lukas, ou melhor, ele me conheceu. Me conheceu e me apresentou, junto a outros grandes nomes, o cinema independente, a arte independente. Aquela que você faz porque quer dizer alguma coisa, diferentemente da grande indústria, que faz de alguma coisa um grande nada. Falando em grande nada, cada filme do querido Lukas é uma sensação diferente, "4-Ever Lilya" retratava o abandono de uma "nada" que, após descobrir por si só, se mata, ou melhor, começa a viver. O abandono está claro no seus filmes, até mesmo nesse último, mesmo que o abandonado seja a postura familiar e não as crianças, como visto anteriormente em seu trabalho. 


Personagens bem trabalhados por uma pessoa que sempre se dedica a experimentar. Não sabe do que estou falando? Assista "Container". Esse filme é uma bizarrice só. Quase um monólogo de um senhor(a) chamado vazio. Preto e branco, lento e, para alguns, chato, é uma grande experiência. Não tão grande como a escolha sexual talvez, aliás, nunca seria tão importante quanto. Em "Amigas de Colégio" temos uma escolha, banhada em muito realismo, sim, realismo do jovem. O beijo dentro do carro, que coisa mais linda. Beijo para Lukas nunca é por nada, assim como o sexo não é só nojento em "Um Vazio no Meu Coração". 

"We are the Best" ou "Nós somos os Melhores", como ficou a tradução, pode ser muito bem entendido como uma experiência pura e simplista de aproveitar a inquietação de crescer. Buscamos incansavelmente todos os dias meios para nos assumir, qualquer que seja nosso segredo. O visual transgressor e a alma punk, são pequenas coisas perto de duas meninas ( Klara e Bobo ) que, no seu interior, tem tanto a gritar para o mundo. A música é a mãe delas, o que une ambas a um terceiro e, ao meu ver, mais importante ponto do filme: Hedvig. Ela se apresenta como uma entidade artística. Portanto aberta a novos pontos de vistas, preparada para passar adiante o que sabe e aprender aquilo que necessita tanto, a bendita atitude. Como conquistamos ela, senão, pela influência? 

Como disse, a música é o pontapé para a unificação de ideias e ideais tão diferentes. Uma cristã, uma agnóstica e outra atéia. Não que essa questão seja explorada ao máximo, apenas fica evidente uma certa reflexão e/ou deboche, que não é basicamente feita em base a certezas mas, como tudo nesse filme, por dúvidas. Fica claro isso quando a Klara desabafa que "Eu não acredito em Deus. Eu acredito em ketchup. É a melhor coisa que existe.


Enfim, é interessante notar que, apesar das certezas que cercam as três protagonistas, a construção, um tanto complexa delas, nos remete a todo instante que são crianças, que nada sabem da vida, senão, tudo. Se o objetivo é comprar uma guitarra, basta gastar o pouco do dinheiro que tem com... doces. Esse é um exemplo de muitos de que, a banda "We are the Best" é movida pelos insultos do mundo para o seu comportamento, digamos, diferente. E não é isso que fazemos todos os dias? Acreditamos fielmente que, dentre todas as pessoas, nós somos os mais loucos. #Somostodospunks

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Miss Violence, 2013


Comecei a olhar para o cinema grego com o clássico filme "Nunca aos Domingos", não que eu tenha amado o filme, simplesmente o assisti e, após descobrir onde fora realmente produzido, fiquei imaginando como a cultura grega poderia afetar o seu cinema. Digo isso por que todos sabemos que, culturalmente falando, a Grécia é um dos países mais ricos. Toda sua história encaminha para uma grande teia de arte pura, onde o homem é posto como interlocutor de suas próprias expectativas. Mas esse estranhamento passa depressa, principalmente quando nos deparamos com diretores como Theodoros Angelopoulos que, honestamente, eu colocaria no patamar "artista diferenciado, extremamente visceral". 

Em 2012 assisti "Kynodontas" e achei incrível. Fiquei chocado com tamanha exposição de crueldade, que em poucos momentos se revela visualmente, digo, uma intenção cruel. É incrível quando um filme choca sem nenhum motivo aparente, aqui temos o choque desde o início, nem ao menos precisamos saber do que se trata. Falo isso porque existe inicialmente um estranhamento sobre os fatos e, só depois, começamos a entender o que se passa com a família protagonista de um horror registrado. 


Também se preocupando em dissecar a "alma de uma família", Miss Violence, de 2013, pode-se traduzir como um soco no estômago. Sim, bem doloroso. Daqueles que sabemos que existe muito mas, por artifícios simples como ser simples, a história se desenvolve e, a cada minuto que passa, o gosto amargo na boca cresce. 

Conta a história de uma menina que, no seu aniversário de 11 anos, se suicida pulando da janela do seu apartamento. Deixando sua família - duas irmãs, irmão, avô/pai, mãe e avó - tristes com sua perda (?) Na verdade, essa tristeza comum (?) não acontece o que começa a causar um desconforto em promotores que avançam no caso em buscas de respostas sobre o que esconde aquela família.


O "desconforto dos promotores" não é só dos promotores, acontece principalmente com os espectadores, aliás, eu diria que o filme é movido por um desconforto inabalável. Logo no início temos uma festa de aniversário, tomada por um clima fúnebre, fingido e tosco, a menina caminha em direção a janela e, antes de pular, olha profundamente para a câmera/nossos olhos - ou seja, quebrado a quarta parede - como se quisesse avisar o que estava acontecendo. Aos olhares atentos, fica claro que o filme percorrerá a exploração, o que não é previsto é qual das tantas ele se tratará. 


Retomando as comparações, é inevitável não lembrar de "Dente Canino"/"Kynodontas" e do diretor Haneke, cuja obras estão muito próximas ao contexto sombrio apresentado aqui. Em "Miss Violence" temos inúmeras cenas onde a família tem seus rostos cortados dentro do enquadramento, ou seja, acompanhamos as suas ações, seus corpos, tudo, menos seus rostos, ironicamente simbolizando a relação monstruosa que existe naquela que podemos chamar de qualquer coisa, menos família. Curiosamente, temos o mesmo artifícil usado por Haneke em "O Sétimo Continente".

Filme silencioso, e o silêncio aqui machuca bastante. Claro, principalmente com a conclusão dessa aproximação fria. Nada fica muito claro ao longo, nem mesmo quem é a mãe, quem é a avó, quem são os filhos, ou melhor, fica claro. Ou melhor, não existe mãe, filhos ou avó, muito menos avô/pai. 

É... há cenas impactantes que, se eu analisasse aqui, comprometeria a "surpresa" no final, então fico no... tudo isso é real. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Charles Chaplin - Entre as lágrimas e o Sorriso


Sonhador, abusado, explorador, independente, gênio, melancólico, palhaço, amante, mulher, garoto, pobre, rico, mendigo, pedófilo... Por ai vai, por tudo foi. Ao tentar analisar a carreira do grandiosíssimo Sir Charles Spencer Chaplin nos deparamos com a máxima de que "um ponto de vista é a vista de um ponto". Muitos ainda tentam confundir-nos, banalizando a linha tênue e significativa que separa a personalidade da sua criação, sua arte. E, esse homem, que lutou contra todos os outros homens, era um artista, do qual a sua própria genialidade não é digna do mundo do qual ele pisou. O mundo não era - e é - digno de o ter como lar, mas nós somos dignos - devemos ser - de resgatar a mensagem principal que ele nos deixou: Sorrir é o melhor remédio. Mesmo quando o medicamento seja para retardar uma doença incurável.

Incurável é a dor que sinto com seus filmes. Suas obras, seus espetáculos. E realmente são. A atuação é estruturada por duas entidades místicas, conhecidas como: Drama e humor. O que Chaplin faz é elevar o respeito e equilíbrio pelas duas. Nunca as abandonando, nem mesmo quando finge o fazer. Ele era perfeccionista. O seu cinema era perfeito, sabe o motivo? ambos nasceram juntos, portanto o entendia mais do que ninguém.

O cinema começa e, por não existir a voz, a dinamização da nova tecnologia é possível. O mundo inteiro poderia ver uma história sem nenhuma barreira. Como se aquela fosse uma oportunidade real de unificação de ideias, pois, nesse berço, ainda não se pensava em cinema como arte. Entretenimento desconhecido que instigava a curiosidade. Essa etapa do cinema é uma fase tão enigmática que transcende as barreiras da realidade. Cria da fotografia, uma nova forma de exercício intelectual se iniciava, quase que uma teia de desenvolvimentos artísticos. A atuação deveria encaixar nas possibilidades da época, o humor deveria ser ao extremo para segurar a atenção, as histórias tinham que ser curtas. Mas o que raios era aquilo? Qual era o objetivo?

Eu passei longos cinco anos pesquisando o trabalho do Chaplin, não quero aqui ser didático, por mais que em uma outra oportunidade pretendo ser, queria só expor o quanto esse ser humano representou para uma desconhecida oportunidade. Tamanha sua curiosidade, foi desbravando os meios, criando suas piadas - inspirando-se pelas experiências com a mãe e o pai alcoólatra - até que chega um momento do desprendimento, onde esse cara vai fazer a sua obra. Eu fico fascinado com o ataque de oportunismo, o poder desse visionário de dar a cara a tapa para fazer diferente, extrair um conteúdo que já vinha fazendo, mas de uma forma completamente diferente. Ele estava pensando nas pessoas? Ele estava pensando que iria mudar o mundo? Não! Ele queria crescer profissionalmente, mas tudo o que tocava virara flores, pois, como percebemos, Chaplin era dedicado/diferenciado, disposto a entregar um pensamento subversivo sobre o que, realmente, é "sentir". Sua vida não fora anormal até então, menino abandonado pela vida, criado atrás das cortinas dos teatros, esperto, pobre... Ele soube aproveitar um pouco do tudo que passou e criou um pouco de todos que existe no mundo.

Vagabundo


O seu personagem, imortalizado, é extremamente cordial. As adversidades que passa não são sentidas no seu comportamento. Ele não trata diferente, é sempre o mesmo. Delicado, sensível, apaixonado e cavalheiro, um conquistador. Parece estranho, não é? Se sentir apaixonado por um vagabundo. Sua doce arte nos ensina que, ser vagabundo, não o tira a possibilidade de ter esperança nas pessoas. É claro que ele tem muitos envolvimentos com mulheres, mas por que ele desperta o interesse nelas, me parece que tanto homem, quanto as mulheres recebem o mesmo tratamento do nosso querido vagabundo. Ele é um palhaço que vaga, não procurando um lar, procurando compartilhar a sua inocência. Encantando e sendo encantado. Oras com seu humor incomparável, oras com sua tristeza costumeira. Independente, faz-nos amar estar triste para, só assim, sorrir. O sorriso se transforma em conquista árdua, diante a crueldade dos homens que ainda não aprenderam a amar. Chaplin nos diz que um dia irão, não a massa, mas o indivíduo sim. 

A sua roupa demonstra que ele não precisa de muito para ser elegante. Basta um chapéu coco e uma bengala para ser lindo, basta ser, basta o olhar, basta o sorriso tímido ao fim de Luzes da Cidade, basta ser o bastante. O vagabundo é um ícone, uma ideologia. Uma lembrança de que existe muita gente por ai querendo gritar ao mundo que muita coisa está errada. Só de pensar eu fico sufocado. Se uma criança está jogada no meio da rua, o vagabundo olha para cima como se quisesse dizer "Não pode ser, de novo?". Gente, preste atenção no que vou dizer, sinta-me, essa é uma cena de um filme de 1921! Estamos em 2014, situações cada vez piores acontecem e há noventa e três anos atrás um homem gritava por socorro. Através do humor, mas com muito drama, muita verdade.

Um garoto-pai
Caminhando, só, pelas ruas
Se sente infeliz quando olha para o céu
Estão caindo anjos agora? - ele pensa
Anjos com asas quebradas, 
à procura de ajuda da verdade,
Existir e ser pai como deve,
Sem a hipocrisia do nascer,
Buscando no choro a sua canção mais doce.
No cobertor rasgado, a sua melhor proteção.
Não deixe que isso acabe papai,
Um dia fui anjo, 
Hoje te entreguei minhas asas.
Quebraremos vidros da ousadia,
Sentados pelas calçadas perdidas, 
Nas florestas de nossos corações solitários.
Sigamos em frente.

- Escrevi quando tinha 13 anos, logo após assistir "O Garoto" pela primeira vez.


Charles Chaplin está sempre relacionado nas listas infinitas de homens que mudaram a história do mundo, gênios etc. Não vejo muitos conhecendo-o, de fato. Muitos conhecem a sua criação, a figura, mas poucos o nobre senhor por trás dela. Até para ter o mínimo de consciência sobre qual é o limite da sepração entre a vida pessoal e profissional, principalmente relacionando-o com a arte audiovisual, que serve como um apanhado de várias outras artes, trabalhando em conjunto. Estou repetindo tanto sobre a personalidade do Chaplin pois, como se imagina, era muito forte. Essa força para a composição, tanto de músicas como personagens e contextos, surgem de uma pessoa extremamente misteriosa. Um intelectual da entrega, da mulher, sua mãe...


O garoto fala, também, sobre ser pai, então a identificação foi imediata, essa postura dele, esse carinho, mesmo sem ter nada para oferecer ao garoto, sempre me fisgou, de alguma maneiro. Vou até me corrigir, ele tinha muito para oferecer, uma verdadeira boa vida. O tudo do pouco. Comparo a situação social dos seus filmes com a própria felicidade. Você não é feliz, você está feliz. Felicidade não nasce junto com as pessoas, ela vem, mediado por situações de momentos, ela pode, inclusive, acabar no dia seguinte. E é isso, Chaplin, o vagabundo, é indiferente a felicidade, ele renuncia essa benção para nos mostrar que não temos que ser felizes, temos que saber aproveitar a felicidade. E essa mensagem maquiagem nenhuma esconde. 

A vida se torna muito simples com o Charles Chaplin. Qualquer coisa vira piada, dentro do grande drama que contextualiza os seus personagens sem lugar. Mas não pense que não ter lugar é algo ruim, é provado em seus filmes que existe lar em qualquer lugar. Mas o vagabundo não pode parar nos lugares que passa, por mais que doa o coração partir. Ele está sempre em busca de novas oportunidades, novas experiências, para preencher a sua eterna esperança de amar perdidamente. 

A Busca


Um pai. Um filho. Uma busca. Só

Todos somos filhos, mas nem todos temos a capacidade de ser pai. Existir é escolher caminhos e, dentre tantos, ter um filho significa se imortalizar. Desde o princípio da história, o homem tenta se imortalizar, seja através da arte ou da relação. Queremos todos deixar a nossa marca nesse milagre extremamente frágil chamado vida. Buscamos incansavelmente nos deixar e acabamos, por fim, deixando nossos filhos. Depositamos neles todos nossos desejos e frustrações e perdemos, a cada minuto, a possibilidade de enxergar a sua individualidade, dom e objetivos. As mães que doam suas vidas para proteger, tentam nos ensinar que, como pais, deveríamos ser fortes o suficiente para ensinar sobre o amor. Amor este perdido na conquista de mais uma.

O filho tem medo e se sente só. O filho fala com o olhar e demonstra toda sua admiração pelo seu pai e o chama, carinhosamente, de “meu super herói”. Anseia ser como ele, possuir como ele, ter certeza como ele, ser forte, pelo simples fato de ser pai. Pobre criança, é filho hoje mas, amanhã, poderá não conseguir ser pai.

Olha pra mim
Vê. Vem. Deixa eu seguir

“A Busca”, dirigido pelo Luciano Moura, não é um filme independente. É um filme solitário. Primeiro porque não há explicação. Não se fala. Mas tudo que está ali foi sentido por seu criador, aposto seriamente nisso. Wagner Moura é o pai (?) e Brás Antunes é o filho (?) – ou vice-versa. Somente os dois interessam, o criador e a criatura. No meio de problemas de relacionamento entre seus pais, Pedro, o filho, resolve fugir. A ideia é atravessar estados para encontrar com o seu avô que, até então, só tinha contato por meio de carta. Ele adota um cavalo e parte em rumo ao seu objetivo: Crescer e ser. A mãe, protetora, grita por um super herói e, como em um passe de mágica, os problemas com o seu ex-marido são deixados de lado para que, assim, possam pensar no que sempre deveriam ter pensado: O filho. O pai segue então em rumo do seu objetivo: Conhecer Pedro.

“Tô” bem aqui

Essa busca por ele mesmo é lindo. O filme se torna um road movie como nunca visto antes. Theo, o pai, conhece o filho dele através das pessoas que o viram passar. Aliás, são muitas pessoas que encontra. Todas acrescentam, encantadoramente, na nossa curiosidade em descobrir onde está o garoto, por que fugiu e o que está fazendo. No final, o filho está se desprendendo das amarras da sociedade, está olhando para o pai e dizendo que nunca o fora de fato e que, agora, está na hora de mostrar quem é e o que está guardado em seu coração. Por isso procura o avô, na sua inocência essa era a única pessoa que o entendia, principalmente pelo fato de também não ter conseguido dar amor ao filho ( pai ). O avô – que é feito pelo maravilhoso Lima Duarte – representa o arrependimento, ou seja, o pai ao final do filme, depois de compreender o seu filho e a sua maturidade/força.

Quando Wagner Moura ( filho ) encontra Lima Duarte ( pai ) – esta cena, inclusive, foi muito esperado pelo Wagner Moura, que é um grande fã do Duarte – ele está sujo, machucado, mas exibe um sorriso no rosto por ter encontrado seu filho. Ele chega antes na casa do seu pai, como se ele fosse o Pedro o filme inteiro. É então que o pai pergunta se ele levou uma surra. Ele prontamente responde: “muitas”. Ele apanhou da vida, do filho mas se manteve de pé para, enfim, se tornar um super herói.

Agora

Há um outro momento que destaco: O pai vê vários jovens sentados na rua, pedindo carona, eles tem a mesma faixa de idade do filho. Ele os leva para uma “festa” com vários jovens. Lá ele encontra uma menina e, então, faz uma pergunta que se torna uma das cenas mais lindas do cinema para mim:

- Estou procurando meu filho.
 - Está cheio de filhos por aqui. – ela responde ironicamente.

Sim. Está cheio de filhos. Filhos da vida. Filhos do cinema. Filhos de um pai e uma mãe. Filhos de avós. Filhos da rua. Filhos que querem ser. Existem filhos assim como existe amor em cada canto. Aliás, filho é a representação humana do amor. O filme é inteligente em usar uma jovem linda e meiga para dizer isso. Repito, mais uma personagem que fala com a voz de Pedro. O fato é que todos os personagens que aparecem ao longo é o mesmo. Seu filho, Pedro. Ele o alerta sobre a sua necessidade, medo e angústia. Fala através de outros personagens.

Eu era, eu era, era, eu sou.

“A Busca” mexeu muito comigo, na minha infância sempre me senti só, sempre precisei de um pai para chamar de super herói, glorificá-lo para os amigos. Não sei, mesmo que você se sinta completo, essa presença masculina faz muita falta. Cresci sendo educado por mulheres, sinto-me feliz por isso, mas o tempo foi passando, o corpo/pensamento mudando e senti muita falta de um pai. Não que o meu não exista, mas ele , assim como muitos e como o filme, nunca conseguiu ser um. Quero acreditar que, algumas pessoas, não tem amor por elas mesmas, são tão perdidas a ponto de perder o crescimento de seus filhos. O que me deixa triste pois, no meu caso, eu tive amor. E quem não tem? Enfim, ás vezes me perco na minha própria inocência em acreditar que as pessoas ferem outras por não ter amor próprio. Inocência é a palavra chave desse filme. A identificação cresce exatamente dela. Da esperança de ser um eterno filho e conseguir ser um bom pai. Escrito por Emerson Teixeira Lima, uma criança que tem lembranças boas do seu pai, principalmente quando ele alugava filmes do Bruce Lee e eles assistiam juntos. Ele, apesar de ser uma pessoa dura, falava como o Bruce lutava bem e ganhava de todos. Enfim, pelo menos ainda me lembro disso.

 Texto dedicado a ele.

 Usei como inspiração a linda música do Arnaldo Antunes “Olha para Mim”. A qual, inclusive, ele gravou com o seu filho, Brás Antunes.

Ps: Texto originalmente postado no "O Cinéfilos: http://supernovo.net/oscinefilos/a-busca-critica/ 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Monstros


Ela é tão linda, doce sentimento efêmero. Causando sufocamento em meu coração, por não saber dizer em palavras o que se passa pela minha cabeça. O olhar abusado, longe de qualquer verdade, faz com que o pobre garoto se sinta abandonado por ser apenas um, dentre tantos. Não que ele seja anormal, simplesmente desconhece a ordem dos fatos, a ordem dos sentimentos, se é que existe alguma, meu caro amigo.

Estava sentado na praça, olhando para as pessoas e me veio a cabeça o quanto elas são superficiais. Seus olhares não demonstram o que são, tampouco o que sentem. Olhares que são, que vão, mas que jamais foram. Olhar cauteloso, inabalável, incontestável, equilibrado e egocêntrico. A vida passa depressa demais, assim como o olhar, que se direciona e se distância mais rápido que um sorriso.

Cavalheiro ressereno, buscando na amada a esperança nela mesma. Guiando-a, tratando-a com carinho e delicadeza. Extrai o seu melhor, para ver o melhor. Se construindo aos poucos, peça por peça, nesse grande quebra cabeça deixado de baixo da cama. Como um bicho papão. Aliás, esse monstro, do qual teimam chamar de papão, se sente infeliz constantemente, pois só queria brincar com a criança, mas ela o teme. Como se fosse de outro mundo, tivesse outras necessidades, como se a aparência transformasse a possível amizade em destruição. Pobre menina, está perdendo o melhor, do melhor monstro.

O palhaço vai descobrindo o seu sepulcro aos poucos, transformando sua vida de fazer rir em fazer chorar. Não que faça alguma diferença, visto que ele sempre foi e sempre será só o palhaço que sempre ajuda mas nunca será ajudado. A dor que ele sente é tão forte que cortou as laterais da sua boca, para rir constantemente, forçando uma origem que se perdeu. Esquecida e irreparável, um homem do riso que um dia se apaixonou platonicamente e, por essa mesma razão, se excluiu, pois viu que a conquista não era para ele, que não tinha coragem de falar para a sua princesa o que ela lhe causava. Um frio na barriga, uma vontade de morder - sem machucar - as suas bochechas rosadas. Há! Como seria bom se ele pudesse colocar um óculos escuro e, como em um passe de mágica, ter coragem para convidar ela para tomar um suco. Mas, pobre palhaço, nem mesmo com sua maquiagem consegue o fazer.

O filho sai de casa, quer morar nas ruas. Para fazer a única coisa que sabe: Cantar. Mas ele não é um exímio cantor, pobre menino, se perdeu em sua própria inocência. Por outro lado suas letras encantam quem passa por ele. Falam constantemente de amor e estar perdido, a procura de compartilhar. Certo dia passa por ele uma jovem, pele branca e cabelos pretos, seus olhos ficaram vidrados e o seu sorriso se mostrou conforme o ritmo doce da composição. Ela se apaixonou, não pelo menino, nem por sua voz, mas pelo que ele tem a dizer. Como se conhecesse aquelas letras, aqueles demônios. Como se soubesse que poderia ajudá-lo. Ela então, em um nobre gesto, roubou a única coisa que o menino tinha: Suas folhas. Fazendo com que não restasse nada. Ele, então, voltou para casa. E ela jamais o esqueceu.

Há uma criança, escondida nas colinas, que nasceu para guiar os homens. Ela ainda não sabe, mas sente constantemente que sua missão é diferente de todos os que conhece. Ela adora ver os pássaros voarem, o som que eles fazem. Ela tem um carinho muito forte, tácito, por alguém que ainda não encontrou. Ela sonhou com ele durante anos, sua forma era distorcida, mas sempre teve certeza que se, por acaso, o encontrasse na rua, o reconheceria imediatamente. Seu amor que ainda não existe, pelo menos não no seu mundo, mas que ela já conhece há muito tempo, como se soubesse que, na vida anterior, ambos foram pássaros que se amaram muito. 

- Emerson Teixeira Lima

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Que é o Amor?


Antes de começar, seria interessante destacar que tenho estado muito distante da vontade de escrever, como vinha fazendo e faço há mais de um ano no blog. Não estou mal, triste ou algo do tipo, talvez seja exatamente o contrário. Eu necessito da melancolia para escrever, espero que vocês entendam isso; Mesmo que nem mesmo entenda.

O fato é que sempre recorrerei a esse humilde lar virtual para escrever sobre algo que me incomoda - de uma forma ou de outra - e eu fico muito feliz que algumas queridas pessoas me acompanham nessa jornada solitária mas, ao mesmo tempo, compartilhada. Assim como tudo na vida, afinal, estamos juntos de quem está longe e longe de quem está perto. 

Para quem não sabe, eu sou um fanático por "Lost". Sim! A série "Lost", olha que coisa. Vamos excluir qualquer questionamento bobo-nerd-star wars-científico que exista e focar na filosofia existente na série. É justamente ela que vou usar hoje. Na verdade, podemos substituir filosofia por "homem", homem perdido, ou seja, todos nós. Eu já falei diversas vezes que me sentir perdido foi por muito tempo minha sensação irmã, não sabia o que fazer da minha vida, o que ia ser de mim, eu sei que é totalmente natural, mas diversas coisas aconteciam em prol a isso, fazendo com que ficasse muito sufocado em um mar de demônios criados por mim mesmo. 

Acredito que a vida se desenvolve em ciclos, que podemos determiná-los como qualquer coisa, o fato é que de ciclo em ciclo nós mudamos, seja em base ao que ouvimos, assistimos, sentimos, vivemos... seja só ou por causa de alguém. Por isso relacionamentos muitas vezes não dão certo, por que a outra pessoa não aceitou essa nova etapa, essa nova oportunidade. Sendo assim, muitas reflexões ou situações podem ser constantemente modificadas. Por isso o perdão é essencial, pois todos merecemos uma segunda chance. "Lost" se trata disso, e digo mais, "Lost" é religioso. Eu sou ateu, mas como uma querida amiga disse uma vez "você é o ateu mais religioso que eu conheço". Fiquei muito feliz com essa definição, pois pude perceber que essa resposta "sou ateu" é muito mais uma sinopse do que eu acredito ( para simplificar para aqueles que acham que conhecem o inexplicável ) do que a realidade. Eu não acredito no mesmo deus que muitos, isso não quer dizer que não acredito em nada. Eu acredito no amor. E o amor só pode ser um deus, caso contrário a vida não teria a mínima graça. 

Esse sentimento puro está em tudo, nos seus pais ( tanto dos que te colocaram no mundo como aqueles que te dão carinho ) , na sua família, mesmo que chata as vezes, nos amigos, na respiração. Existe amor quando não se tem família, amigos ou respiração. Existe amor na falta de amor. Existe amor nas ruas e nas canções. 

O que temos muito é jovens falando sobre sentimento, o quanto sofrem e tudo mais. Mas convenhamos que o amor não faz sofrer, isso é paixão. Eu vejo o amor como um sentimento maior do que namoro ou até mesmo casamento. Existe uma expressão russa chamada "Razbliuto" que quer dizer aquele sentimento de afeição, ao mesmo tempo carinhoso e dolorido, que sentimos por uma pessoa quando deixamos de amá-la. Para mim, isso é amor. Está mais ligado ao carinho que o desejo. E, na boa, podemos amar qualquer um em qualquer situação, essa atitude ultrapassa as barreiras das necessidades terrestres como o dinheiro, por exemplo. Por que ele nasce e, mesmo que morra, Razbliuto, ainda existirá algo dentro dos nossos corações. 

Eu amo o indivíduo e odeio a massa. As pessoas quando estão só são lindas, respeitáveis e tentadoras, mas quando se unem em um sistema não passam de cordeiros. E é isso que odeio. Odeio o fato de ter que estar perto ou próximo apenas por estarmos no mesmo ambiente, poxa, a vida não acaba ali. As pessoas se esquecem, como conseguem fazer isso tão fácil? 

Fui assistir "A Culpa é das Estrelas" esses dias, honestamente, eu não estava muito bem, entrei no cinema, sala lotada de meninas, inicialmente até fiquei meio sem graça. Mas começou o filme e fiquei bobo com admiração que as menininhas tem por ver em tela um menino que trata bem uma mulher. Que porra é essa? Pode isso Arnaldo? Não consigo entender o porquê de tanta admiração se isso existe na vida real, claro, não como nos filmes, mas o respeito existe. Agora, o que mais vejo é a auto diminuição de valor. Se você se coloca como produto será tratada como produto, é óbvio. Se nós tivéssemos a maturidade de entender que o amor/sentimento é muito mais do que algo decifrável, entenderíamos tudo. Aliás, esqueci de escrever acima que amor é, dentre tantas coisas, verdade. Só isso basta. Verdade. 

A verdade de reconhecer que vivemos para nos transformar e, através disso, aprender que não somos sinceros o suficiente. Falar sem medo, sem ensaios. Criar e ser criado. É tão fácil quanto dois mais dois são cinco. Só sei que temos muito pouco tempo para realizar tudo, conhecer tudo para ficarmos cobertos por máscaras do dia a dia. 

Posso ser o cara mais infantil que existe por sonhar com isso, ver as coisas dessa forma, mas posso afirmar com alegria que, hoje, dentro dessa subversividade, posso fazer a diferença na vida de alguém. E você ai? Sim, que está lendo isso. Já amou hoje?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Fada



Um tanto herói, oras vilão
Muito apaixonado e cristão
Odioso olhar, cheio de arrependimento
Verdades falsas, mentiras verdadeiras
Fazendo desse mundo apenas um.

A nossa janela nos apresenta
Cores e possibilidades
Um outro lado, de um mundo igual
O tempo Têmpera a pressa

Ali está a fada, da qual tanto falei
Repousando seus pés cansados
Suas asas ficaram pequenas
De tanto esperar segurança
Um abraço mudaria tudo,
A angústia e os pés cansados.

E, no entanto, ela apareceu
Com os olhos tristes, esperando solução.
Pobre bailarina, ainda está em busca,
Do amor que se perdeu.

Um sussurro,
Assustou-me!
Minha doce esperança.

Ei, você me conhece?


Percorrendo o todo, ou imaginando um dia o fazer.
Vendo todos, apaixonado por alguns.
Romantizando desde sempre o meu vazio.
Existindo e sendo dividido
Na esperança de não ser esquecido.
Pobre menino iludido, 
Querendo ser quem não é, 
Um protagonista de um filme independente,
Feito com o coração e verdade.
Verdade da rua, 
Dos artistas de rua.
Da estrada.

Drogado da respiração,
Viver faz de mim um louco,
O rei deles. Afinal, posso pensar.
Sentindo cinema e sendo por ele sentido.
Amigo dos amigos distantes. 
Namorado dos olhos azuis e cabelos coloridos. 
Amante do esquecimento e envelhecimento,
Ao contrário, claro.

Sou amante do contrário. 
Subversividade.
Extintor de incêndio e petróleo.
Coração e sapos.
Estamos todos, aqui e lá
Um dia,
Dois.

Sou confiante,
Um tanto mentiroso também.
Sou o que aparento, 
A não ser, claro, quando interpreto.
Várias etapas de mim. 
Várias opiniões sobre nós.
Sou nós.

O "por acaso" está morto.
Tudo existe por um motivo. 
Em breve todos encontraremos as nossas escotilhas
Uma só para todos, pois, repito, todos somos um.

Sou cara inventado.
Adaptado pela arte, 
Planejado pelo sentimento.
Perdido constantemente,
Sendo encontrado eventualmente.
Sou exatamente o que seus olhos veem,
Mas não faço deles a minha necessidade.


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